Resíduos da produção de café: Uma alternativa sustentável
Embora vital para economias locais, a cafeicultura gera grandes quantidades de resíduos, tornando-se um desafio ambiental. Entre outras razões, estágios desta cadeia produtiva geram resíduos que, se não gerenciados corretamente, podem causar problemas fitossanitários e ambientais.
Por outro lado, os baixos preços do café muitas vezes não garantem lucro aos produtores, e eventualmente nem chegam a cobrir os custos da produção ou garantir uma boa qualidade de vida aos produtores. No entanto, os subprodutos do café, da planta até a xícara, mostraram potencial para diversificar a renda dos produtores, sendo de interesse para diversos setores.
Conversei com produtores, empresários e pesquisadores sobre o potencial e os desafios do aproveitamento dos subprodutos do café. Continue lendo para saber mais.
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Produção de madeira de café
O café é uma das bebidas mais consumidas globalmente, porém, usa-se apenas 5% do peso da cereja no preparo, deixando 95% como resíduos orgânicos. Um exemplo é a madeira produzida durante as reformas das plantações de café, geralmente usada como lenha, na produção de carvão ou como matéria orgânica para fertilização. Uma alternativa sustentável para esses resíduos é a produção de madeira a partir dos caules do cafeeiro, uma prática adotada pela Londoño’s Coffee Crafts, na região de Santa Rosa de Cabal (Colômbia), conforme relata Mauricio Londoño Sepúlveda.
Maurício é cafeicultor e gerente geral da empresa. Ele conta que há uma década, a empresa implementou o reaproveitamento dos caules do café na fabricação de móveis e acabamentos para design de interiores. Pesquisas do Cenicafé indicam que a madeira de café é resistente e densa, podendo ser utilizada na fabricação de diversos produtos, como móveis, cadeiras, estantes e pisos.
De acordo com Maurício, a vida útil desses móveis gira entre 20 e 30 ano e a geração de CO₂ na cafeicultura poderia ser reduzida consideravelmente a partir da industrialização de caules e gravetos.
Além dos móveis, a empresa identificou outras oportunidades de negócio, como a fabricação de espetos para assar carne, aproveitando o sabor único gerado pela fumaça da madeira de café. “Quando a brasa e o carvão estão muito quentes, eles (os chefs) jogam a madeira na brasa e ela começa a gerar fumaça, que penetra na carne e dá sabor”, explica Maurício.
Ele também menciona a fabricação de ossos para cães a partir dos talos de café, destacando os benefícios naturais dessa fibra para os animais.”É uma fibra natural que ajuda o animal, tanto no desenvolvimento dos dentes, quanto na proteção e na remoção do tártaro dos dentes que começa a ser gerado pela alimentação”.
Usos alternativos para a casca e a polpa
A casca e a polpa do café estão se tornando uma valiosa fonte de oportunidades em diversos setores, desde a agricultura até a indústria alimentícia. De acordo com Andrés Bahamón, pesquisador no Centro Surcolombiano de Investigación de Café (CESURCAFÉ), muitas vezes os resíduos se acumulam nas fazendas e, sem tratamento, causam mau cheiro e contaminação do solo e dos rios.
Elas representam cerca de 29% do peso do fruto e são compostas de proteínas, gorduras e carboidratos. Isso as torna ideais para a produção de biofertilizantes e fontes de energia e em diversos produtos prontos para consumo humano. “Fizemos análises químicas e o conteúdo de cafeína é semelhante ao dos grãos, além de ter outros compostos de interesse nutricional”, diz Nelson Gutiérrez Guzmán – também pesquisador do CESURCAFÉ.
Com o devido processamento, a casca e a polpa ainda podem ser transformadas em vários produtos, como bebidas alcoólicas, farinha sem glúten e até mesmo substrato para o cultivo de cogumelos. A ONG Slow Food Bolívia, inclusive, criou um livro de receitas à base deste subproduto. Essas iniciativas não apenas reduzem o desperdício, como promovem uma abordagem sustentável e integrada em toda a cadeia de produção.
A casca e a polpa também são bons alimentos para diversos animais. De acordo com uma publicação da Organização Internacional do Café (OIC), a polpa pode substituir em até 20% os concentrados comerciais usados na produção de rações, reduzindo em 30% seu custo. Deve-se observar, no entanto, que elas precisam ser pré-tratadas antes do oferecimento em pequenas porções para reduzir o risco de mortalidade dos animais. Andrés explica que a casca contém cafeína e polifenóis que podem afetar a saúde animal. “Deve-se promover uma fermentação da casca por 24h para desintegrar esses compostos. Só então pode-se misturar com a ração usual numa taxa de até 40%.”
Os benefícios da mucilagem para a saúde
A mucilagem é uma camada que envolve a semente e uma forma de removê-la é durante o processamento do café lavado. Nas fazendas sem sistemas de tratamento, as águas residuais do processamento vão para nascentes e rios, causando poluição e prejudicando a fauna e a flora locais.
Segundo a Specialty Coffee Association (SCA), as águas residuais do processamento úmido do café poluem até 40 vezes mais do que as águas residuais urbanas. No entanto, o agronegócio optou por dar uma segunda chance à mucilagem dado que algumas pesquisas revelaram que ela contém antioxidantes, polifenóis e ácido clorogênico. Essas substâncias podem melhorar a regeneração das células do corpo e retardar o envelhecimento.
Daniela Maya, produtora de café de quinta geração e diretora de comércio exterior do grupo empresarial colombiano ACCRESCO, explicou que há anos atuam como embaixadores da economia circular, graças ao gerenciamento dos subprodutos do café que cultivam. Seu principal projeto é o concentrado de mucilagem, desenvolvido pela empresa Desarrollos Ecológicos, uma aliança entre a ACCRESCO e a Sanadores Ambientales. Ele é usado como matéria-prima em cosméticos, produtos farmacêuticos e alimentos.
“Temos uma planta que concentra a mucilagem usando evaporação a vácuo, preservando os compostos importantes sem oxidá-los. No setor de cosméticos, desenvolvemos sabonetes e shampoos, especialmente para a pele, e também cremes. É ótimo, pois os antioxidantes podem ser usados tanto internamente quanto na pele”, Daniela afirma. Os produtores também podem converter a água da mucilagem em fertilizante orgánico ou em alimento para porcos.
Pergaminho, um resíduo durável
O pergaminho, também conhecido como cisco, é o que sobra do grão após o beneficiamento. Normalmente, o usamos como fertilizante orgânico, mas algumas empresas estão adotando-o como na queima para aquecer o secador, reduzindo resíduos e a quantidade de outros combustíveis, além de diminuir as emissões de gases de efeito estufa.
Andres destaca que o pergaminho possui propriedades antimicrobianas que o tornam resistente à degradação. Por isso, a CESURCAFÉ e a Universidad del Cauca se uniram em um projeto para criar recipientes, bandejas de alimentos e embalagens biodegradáveis.
Além disso, a empresa Maeco, em parceria com pesquisadores da Universidade dos Andes, na Colômbia, desenvolveu um material que combina PVC e cisco de café para construir moradias sociais. Esse material, composto por 60% de resíduos de café, é versátil e tem uso em diversos projetos arquitetônicos, industriais ou decorativos, substituindo o concreto e, eventualmente, aço, alumínio, tijolo e madeira também.
Outra ideia inovadora é o desenvolvimento de briquetes compactos com pergaminho para cozimento de alimentos ou combustão industrial. Eles competem com a lenha porque usam menos tempo e material para cumprir a mesma função.
Vantagens econômicas para os produtores de café
Aproximadamente 70% dos cafeicultores enfrentam dificuldades com a produção de café como única fonte de renda. Utilizar os subprodutos do café para gerar receita adicional pode diminuir essa dependência, mitigando os impactos das flutuações de preços no mercado. O professor Nelson afirma: “Quando eu estava visitando a Bolívia, alguns produtores recebiam mais receita com a venda da sultana do que com a venda do próprio café. No caso de Mauricio, a venda de móveis gera uma margem de lucro de 30%.
Os resíduos do café oferecem oportunidades de valor agregado, mas processá-los exige recursos que muitos produtores não possuem. Os caficultores também podem usar as cooperativas ou associações de café, pois algumas podem servir como centros de coleta de subprodutos. Já Maurécio sugere que pequenos cafeicultores forneçam subprodutos para indústrias maiores ou foquem em produtos artesanais.
Ele me conta que a madeira que sua fazenda produz não é suficiente e que ele recorre a outros produtores para garantir o suprimento. O valor que paga está entre US$ 0,50 e US$ 0,80.
Falta de clareza na regulamentação
Embora muitas leis busquem regulamentar o descarte e tratamento de resíduos agrícolas para mitigar os impactos ambientais, ainda existem lacunas na regulamentação para o uso desses materiais. Mauricio destaca que na Colômbia não há regras para a reutilização da madeira de café. “Nenhuma lei fala nada sobre o transporte de madeira de café. É muito difícil entender como podemos exportá-la, comercializá-la e também para trazê-la para os Estados Unidos.”
Ele se une à Daniela, que afirma: “embora a regulamentação do café seja responsabilidade da FNC, quando se trata de subprodutos é necessário analisar outras regulamentações. Temos que saber como obter orientação, como pesquisar. Cada produto tem suas particularidades e as informações estão sempre disponíveis.”
É crucial para produtores e empresários entenderem todos os aspectos dos subprodutos e seu uso pretendido. Isso ajuda a evitar erros ou obstáculos na comercialização. Andrés menciona que, para exportar ou comercializar a casca para uso alimentício, é importante considerar que ela ainda não está regularizada na União Europeia como produto seguro para consumo humano. “A falta de padrões específicos dificulta as coisas, especialmente nos mercados europeus”, ele diz.
A produção sustentável de café vai além da rentabilidade da colheita. Ela envolve também a proteção dos recursos naturais, da biodiversidade e o desenvolvimento socioeconômico das regiões produtoras. Processar resíduos de café exige infraestrutura e investimento, mas não deve impedir iniciativas em sua fazenda.
Ao considerar explorar esses recursos, avalie os custos, busque parcerias e entenda o mercado. Isso ampliará suas oportunidades de gerar receita adicional e reduzir a dependência dos preços do café.
Crédito das fotos: Londoño’s Coffee Craft, Tatiana Guerrero, CESURCAFÉ.
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