10 de junho de 2024

Como os torrefadores podem planejar seus cardápios quando os preços sobem

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Num cenário onde os preços do café estão cada vez mais imprevisíveis e os custos operacionais seguem em constante em ascensão, estrangulando as margens de lucro, os torrefadores enfrentam um desafio crucial: como gerenciar seus cardápios de café de forma estratégica para permanecerem competitivos e garantirem a fidelidade dos clientes?

Além disso, problemas imprevistos de logística e cadeia de suprimentos podem ser complicados para os torrefadores. Em alguns casos, esses problemas podem levar a atrasos ou custos adicionais, portanto, os administradores de empresas precisam saber como lidar com eles da forma mais eficaz possível.

Compreender os mecanismos por trás dessas oscilações de preço e estar preparado para lidar com imprevistos na cadeia de suprimentos tornou-se essencial para o sucesso do negócio. Conversei com Tony Dreyfuss, co-fundador e co-presidente da Metropolis Coffee Company, Richard Sandlin, diretor de desenvolvimento de negócios da Royal Coffee, e Yousef Alzayer, fundador da Leanitai Coffee, para explorar estratégias eficazes nesse contexto desafiador.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre como os médios e pequenos torrefadores podem gerenciar os riscos de preços.

COMPREENDENDO A VOLATILIDADE DOS PREÇOS E A INFLAÇÃO

Nos últimos dois anos, os torrefadores têm enfrentado um cenário de aumento constante nos custos operacionais, especialmente no que diz respeito ao preço do café. Esse aumento é refletido no que é conhecido como o preço C, que representa o preço de negociação do café arábica na Intercontinental Exchange, um dos principais mercados de commodities sediado em Nova York.

O preço do café, como qualquer outra commodity, está sujeito a flutuações constantes, e nos últimos anos tem sido particularmente volátil. Em agosto de 2023, por exemplo, o preço C atingiu uma alta de seis meses, ultrapassando a marca de US$ 2 por libra. No ano anterior, o Brasil, principal produtor mundial de café, testemunhou os preços mais elevados do café arábica desde 1997.

Enquanto isso, o preço do robusta vem subindo acentuadamente e atingiu um recorde em 3 de abril de 2024, após relatos de escassez de suprimentos no Vietnã.

Aumento dos preços em geral

Richard Sandlin é diretor de desenvolvimento de negócios da Royal Coffee — um importador de café verde nos EUA. Segundo ele, os preços do café verde estão sempre flutuando. “Quando você ler este artigo, é possível já esteja acontecendo outra oscilação de 30 centavos, ou que o preço tenha se estabilizado por algumas semanas”, ele diz.

“Mas o café verde também precisa ser embalado, enviado, exportado, importado, liberado na alfândega, amostrado e depois enviado para a torrefação”, acrescenta. “Parece que todos os custos associados estão aumentando e, mesmo com um preço C em constante mudança, é provável que os torrefadores paguem preços mais altos — ou pelo menos mais altos do que gostariam.”

Certamente vimos isso com o aumento da inflação nos últimos dois anos. Em particular, isso foi fortemente impulsionado pelo aumento do custo dos alimentos e da energia. De fato, em março de 2023, a BBC informou que os preços dos alimentos atingiram o maior valor em 45 anos no Reino Unido, com uma situação econômica semelhante impactando países em todo o mundo. Por sua vez, os operadores comerciais absorveram alguns dos custos crescentes e passaram alguns deles para os consumidores também. E aqui se incluem os torrefadores.

COMO OS TORREFADORES PODEM SE ADAPTAR AOS AUMENTOS DE PREÇOS?

Como muitas outras indústrias, o aumento dos preços é uma parte inevitável do setor cafeeiro. Para que os torrefadores os manuseiem da forma mais eficaz possível, a preparação é fundamental.

Quando se trata de comprar café verde especificamente, Richard diz que há quatro fatores principais a serem considerados:

  • qualidade;
  • disponibilidade;
  • preço;
  • fluxo de caixa;

Ele diz que, ao contabilizar todos os itens acima, os torrefadores podem construir um cardápio que não apenas atraia os clientes, mas ajude a equilibrar os custos de forma mais sustentável. “Por exemplo, quando os preços do café etíope são altos, alguns torrefadores mudam da compra de grau 1 lavado ou natural para grau 2 lavado e grau 3 natural”, diz ele. “Da mesma forma, os cafés quenianos podem ser trocados por grãos da Tanzânia ou Ruanda.”

Os torrefadores devem, é claro, sempre evitar sacrificar a qualidade do café o máximo possível. Mas trocar diferentes origens com perfis de sabor semelhantes pode ser uma maneira eficaz de manter a consistência e, ao mesmo tempo, obter lotes de alta qualidade. “Esta certamente não é uma ciência perfeita e é amplamente baseada nas preferências de seus clientes e no que torna sua empresa única”, acrescenta Richard.

Fazendo planos

Yousef Alzayer é o fundador da Leanitai Coffee – um importador de café verde na Arábia Saudita. Ele explica como os torrefadores podem utilizar os benefícios da compra à vista e a prazo. 

Para contextualizar, a compra à vista é quando os torrefadores compram café de um importador sem nenhum compromisso prévio. Isso geralmente significa comprar café que já se encontra em estoque de algum armazém. A compra a prazo, por sua vez, é quando um torrador se compromete antecipadamente a comprar o café de um produtor. Em última análise, esta última prática ajuda a construir relacionamentos mais significativos com os produtores. 

Existem, no entanto, algumas vantagens em comprar à vista em determinadas situações. “Alguns torrefadores não podem se comprometer a encaminhar a compra às vezes, pode ser uma jogada arriscada”, diz Yousef. “Pode ser melhor para os torrefadores menores começar com a compra à vista, para que possam comprar cafés diferentes em quantidades menores – e depois mudar gradualmente para a contratação direta à medida que crescem como um negócio. 

“Os torrefadores maiores, no entanto, definitivamente devem considerar a contratação futura, porque isso ajudará a garantir a eles ações seguras a um preço competitivo”, acrescenta.

Richard enfatiza que, ao navegar pela compra à vista e a prazo, é aconselhável consultar seu trader ou importador. “Em geral, quando o mercado C está alto, recomendamos comprar café verde com três a seis meses de antecedência, se o seu fluxo de caixa permitir”, diz ele. 

“Se o mercado C estiver baixo, reservar mais seis a nove meses pode ser melhor. Você deve considerar sua posição de fluxo de caixa em primeiro lugar”, acrescenta. “Sempre lembro aos torrefadores que, com flexibilidade e planejamento, não há problema que não possamos resolver.”

Aumentar e diversificar a receita

Tentar aumentar a receita ao lado de condições econômicas desafiadoras pode ser difícil. Richard destaca que ser transparente com os clientes é importante.  “Acho que, desde 2021, ficou mais fácil para as empresas conversarem com seus clientes sobre como os preços estão subindo”, diz ele. 

“A maioria dos torrefadores com quem converso diz que, quando se comunicam com sua base de clientes sobre como os custos do café verde ou da mão-de-obra aumentaram, as conversas foram ótimas. Ao mesmo tempo, é essencial ter sempre um café de nível básico em sua linha para ter algo para todos”, acrescenta.

Tony Dreyfuss é co-fundador e co-presidente da torrefação Metropolis Coffee Company, de Chicago. Ele concorda, dizendo que simplificar as ofertas de produtos pode economizar dinheiro dos torrefadores a longo prazo e ter um impacto positivo duradouro em seus negócios. A diversificação dos fluxos de receita também pode ser uma maneira eficaz de gerenciar custos e cardápios. 

“Como resultado do aumento da inflação, os torrefadores estão considerando diferentes opções e pausando algumas compras para reduzir custos e concentrar seus gastos em outras áreas que podem tornar as operações mais viáveis”, diz Yousef. “É muito importante considerar a elasticidade da demanda do consumidor final, portanto, os torrefadores devem ter como objetivo otimizar seu retorno, mantendo a reputação da marca.” 

Ele acrescenta que o aumento dos preços deve ser uma opção final para os torrefadores (a menos que estejam vendendo abaixo do preço de mercado) e, em vez disso, devem se concentrar na construção de relacionamentos com os clientes existentes. “As cafeterias devem oferecer mais do que apenas café”, ele diz. “Você tem que fornecer uma experiência para ajudar os clientes a aprender mais sobre o café.”

ENFRENTANDO QUAISQUER DESAFIOS PELA FRENTE

Richard explica que os torrefadores devem ter em mente os valores de sua marca ao planejar seus cardápios ao mesmo tempo em que gerenciam os custos. “Encontrar os cafés que você deseja destacar deve ser primordial para qualquer negócio no setor. À medida que os preços aumentam, isso pode significar oferecer outros cafés que podem não ser tão premium quanto suas opções de filtrados. E não há problema algum nisso”, ele diz.

Tony, por sua vez, diz que diferentes tipos de torrefadores podem ser mais ágeis do que outros, dependendo de seus modelos de negócios. “Se o seu negócio atua principalmente no atacado, suas margens serão muito menores em comparação com um varejista”, ele diz. “Por exemplo, se você é um varejista de café que vende pacotes de alto preço a US$ 18 e os custos do café verde sobem de 50 centavos a 1 dólar adicional, você ainda tem alguma flexibilidade com suas margens.”

Mas, independentemente do tamanho de seus negócios, entender e reavaliar as operações e as estratégias de compra pode ajudar os torrefadores a planejar melhor seus cardápios.

Os preços flutuantes mantêm os torrefadores atentos. Mas com estratégias de planejamento eficazes, as empresas de café podem equilibrar os custos e organizar seus cardápios de acordo.

“Acho que os torrefadores podem ter tudo”, conclui Richard. “Os torrefadores ainda podem manter compromissos de longo prazo com os produtores, enquanto ainda oferecem preços que os consumidores podem pagar. O ponto de partida para qualquer torrador, grande ou pequeno, é considerar os custos dos produtos que você está vendendo.”

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre se os consumidores  continuarão pagando preços mais altos por cafés especiais.

Tradução: Daniela Melfi.

PDG Brasil

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