Yeny Ballesteros, Author at PDG Brasil https://perfectdailygrind.com/pt/author/tatianaguerrero/ Revista digital sobre café, da fazenda à xícara Wed, 05 Jun 2024 19:35:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://perfectdailygrind.com/pt/wp-content/uploads/sites/5/2020/02/cropped-pdgbr-icon-32x32.png Yeny Ballesteros, Author at PDG Brasil https://perfectdailygrind.com/pt/author/tatianaguerrero/ 32 32 Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? https://perfectdailygrind.com/pt/2024/07/08/altitude-fazenda-cafe/ Mon, 08 Jul 2024 07:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14438 Já se sabe há um bom tampo que a altitude exerce uma influência significativa sobre as características sensoriais do café, incluindo aroma, sabor, corpo e acidez, fatores determinantes para sua qualidade e valor comercial.  A relação entre altitude e as propriedades do café se deve principalmente ao impacto do clima na maturação do fruto. Em […]

The post Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Já se sabe há um bom tampo que a altitude exerce uma influência significativa sobre as características sensoriais do café, incluindo aroma, sabor, corpo e acidez, fatores determinantes para sua qualidade e valor comercial. 

A relação entre altitude e as propriedades do café se deve principalmente ao impacto do clima na maturação do fruto. Em altitudes superiores a 1500 m, onde as temperaturas tendem a ser mais baixas, o processo de maturação é mais lento, permitindo o desenvolvimento de perfis de sabor mais complexos e nuances aromáticas distintas.

Apesar disso, é importante notar que muitas fazendas operam abaixo dessa marca considerada “ideal” para cafés de alta qualidade. Contudo, isso não implica necessariamente que esses cafés carecem de qualidade. Nesse contexto, é interessante observar a opinião de duas engenheiras agrônomas do Peru, que ressaltam a importância das práticas agronômicas e do processo de beneficiamento na produção de cafés excepcionais. Continue lendo para descobrir o que elas têm a dizer.

Leia também: Como a altitude influencia o café e seu sabor na xícara? 

Cerejas de café cultivado em altitude

Existe uma altitude ideal?

A altitude desempenha um papel fundamental na produção de café, com a faixa ideal para o cultivo da espécie arábica situada entre 800 e 2.100 metros acima do nível do mar. Essas altitudes proporcionam condições climáticas ideais, com temperaturas variando de 17 °C a 23 °C, o que é fundamental para o desenvolvimento adequado dos grãos. No entanto, algumas plantações podem ser encontradas em locais com variações nesse intervalo e sob níveis adequados de precipitação. Elas podem se adaptar por meio da regulação da exposição solar ou do sombreamento, por exemplo.

Fanny Rosario Márquez é engenheira agrônoma tropical e professora na Universidade Nacional Intercultural de Quillabamba, no Peru. Ela destaca que estudos realizados nas fazendas da região demonstraram que os cafeeiros que crescem em altitudes superiores a 1.500 metros acima do nível do mar tendem a receber pontuações mais altas.

Além disso, Fanny explica que, em altitudes mais baixas, a temperatura pode atingir máximas de até 38 °C e mínimas de 22 °C, o que resulta em um período de maturação do fruto de menos de seis meses, considerado o ideal. “Nas áreas mais baixas [do Peru], esse processo ocorre em menos tempo. Quase um mês a menos e, em outros lugares, até um mês e meio. [Nas áreas mais baixas, a colheita acontece em março], mas nas áreas de café de altitude, que estão a 1.500, 1.600 metros, a colheita só começa em maio ou junho”, ela acrescenta.

No estudo conduzido pela equipe de Fanny em 285 fazendas de café em Tunquimayo, Peru, observou-se que os grãos cultivados em maiores altitudes tendem a ser maiores, mais pesados e menos defeituosos. Além disso, outras pesquisas sugerem que cafés de qualidade superior apresentam teores de cafeína menores, os quais diminuem à medida que a altitude aumenta.

Esses achados podem explicar por que o café Robusta ainda é menos popular que o Arábica na cena do café especial. O Robusta é cultivado entre 500 e 1.200 metros, resultando em teores de cafeína consideravelmente mais altos e, consequentemente, sabores mais amargos. No entanto, recentemente, tem-se notado um aumento na apreciação pelo Robusta fino, de qualidade, com suas propriedades distintivas.

fazenda de café situada em grande altitude

Boas práticas para alcançar a qualidade

Haida Gonzáles Soto, engenheira agrônoma tropical que trabalha com produtores de café e cacau em Cusco, Peru, destaca que os cafés cultivados em altitudes acima de 1.500 metros oferecem vantagens competitivas para os cafeicultores. Isso ocorre porque tais cafés desenvolvem excepcionalmente os atributos sensoriais avaliados no protocolo de degustação da SCA, resultando em pontuações mais elevadas.

No entanto, Haida indica que mesmo um café cultivado a 1.200 metros acima do nível do mar, alcançando apenas uma pontuação entre 79 e 80, classificando-se como café de qualidade comercial, pode atingir os 83 pontos, colocando-o na categoria de café especial, se cultivado com boas práticas agronômicas e processamento adequado.

Um estudo que avaliou o perfil de qualidade de 680 amostras de café produzidas em 162 fazendas na Colômbia concluiu que uma boa variedade plantada em áreas elevadas não garantia a qualidade do café. Pelo contrário, a qualidade estava diretamente relacionada com boas práticas de fabricação, boas práticas agrícolas, processos de beneficiamento e secagem.

Então, surge a questão: trata-se da genética da variedade ou do processamento? Embora as características genéticas influenciam na qualidade sensorial, o processamento também desempenha um papel importante.

Consequentemente, um manejo adequado de pragas e doenças, um bom plano de fertilização determinado pela análise do solo, a constante remoção de ervas daninhas que competem por nutrientes e um bom manejo pós-colheita aumentarão significativamente as chances de produzir um café com melhores atributos.

Além da altitude, é importante considerar a latitude, o clima e outros fatores que também desempenham um papel importante. Por exemplo, as Ilhas Galápagos, localizadas em ambos os lados da linha do Equador, possuem fazendas situadas a apenas de 200 a 300 metros acima do nível do mar, com temperaturas em torno de 23 °C, devido à influência da Corrente de Humboldt, que traz ar frio do Chile e Peru. Surpreendentemente, apesar dessas condições, os cafés da região tendem a ser doces e de corpo médio, com notas de caramelo.

folha com ferrugem segurada pela mão de um agricultor

Incidência de pragas e doenças 

No que diz respeito à incidência de pragas e doenças, estas representam uma ameaça significativa para o cultivo do café, a rentabilidade da fazenda e a qualidade do produto final. Cafés cultivados em altitudes mais baixas estão mais suscetíveis a esses problemas.

Fanny explica que a broca e o minador de folhas são insetos que prosperam em cultivos entre 900 e 1.400 metros acima do nível do mar, com uma incidência particularmente alta abaixo de 1.000 metros. “Às vezes, até 80% dos grãos são afetados, pelo menos no caso da broca. No entanto, é importante notar que a broca não é encontrada acima de 1.800 metros, pois não tolera temperaturas baixas”, acrescenta Fanny.

A ferrugem e a cercospora são doenças que afetam plantações de café em diferentes altitudes, mas seu impacto é particularmente devastador entre 900 e 1.400 metros acima do nível do mar. Segundo uma publicação da SCA, as temperaturas entre 21 °C e 25 °C favorecem a proliferação da ferrugem, pois a doença não sobrevive abaixo de 15 °C. Além disso, altos níveis de umidade também são condições ideais para sua propagação.

Fanny acrescenta: “Em cafezais acima de 1.800 metros, podemos encontrar ferrugem, mas não é tão comum. Pode haver uma incidência de 2% a 5%, mas a ferrugem em altitudes mais baixas pode chegar a 100%”. “O surto de ferrugem que ocorreu aqui alguns anos atrás, desde 2012, 2013, até 2016, foi muito forte e obrigou os agricultores a terem que mudar suas culturas”, conta Fanny.

Por outro lado, Haida diz que o fungo Mycena citricolor, conhecido como Olho de Galo, afeta folhas e frutos do café durante todo o seu processo de desenvolvimento e gosta de climas chuvosos, com altos níveis de umidade, nebulosidade e temperaturas mais baixas.

“Uma grande deficiência que temos no setor cafeicultor e cacaueiro é a incidência de pragas e doenças. Definitivamente, isso reduz bastante a produção, o rendimento e a qualidade, o que acaba aumentando nossos custos, porque temos que investir mais recursos na seleção de nossos grãos de café”, comenta Haida.

colheita manual em fazenda situada em grande altitude

Variedade de café ideal por altitude

Uma das decisões mais críticas para um produtor de café é a seleção das variedades a serem cultivadas em sua fazenda. A altitude será um fator determinante para escolher a variedade de café mais apropriada.

Para as plantações situadas em altitudes inferiores a 1.200 metros acima do nível do mar, recomenda-se o cultivo de variedades híbridas de Robusta, como as da família Catimores, devido à sua resistência à ferrugem. Essas variedades também costumam suportar as condições climáticas em altitudes baixas e, se cultivadas com boas práticas agrícolas e de processamento, podem alcançar altas pontuações na xícara. Por exemplo, a variedade Castillo, que pertence a esta família, demonstrou possuir características semelhantes às variedades Typica e Bourbon e tem ganhado espaço no mercado de cafés especiais.

Por outro lado, para as fazendas situadas a mais de 1.600 metros acima do nível do mar, é aconselhável o uso de variedades como Typica e Bourbon, conhecidas pela alta qualidade que podem atingir, com pontuações superiores a 86 na xícara, embora sejam mais suscetíveis à ferrugem. Fanny observa que, em alguns casos, mesmo em áreas com boa altitude e sem grandes problemas de ferrugem, alguns produtores optam por plantar Gran Colombia ou Catimores, que são resistentes à ferrugem.

Adicionalmente, Fanny menciona que alguns cafeicultores têm migrado para outros sistemas de produção mais lucrativos. Aqueles com fazendas situadas em altitudes entre 900 e 1.300 metros acima do nível do mar têm optado pelo cultivo de banana ou cítricos, enquanto os localizados abaixo de 1.000 metros acima do nível do mar têm investido no cultivo de cacau.

No entanto, antes de tomar uma decisão drástica, é importante considerar que a rentabilidade da cultura não depende apenas da altitude, mas de muitas outras variáveis. Haida e Fanny concordam que o café de baixa qualidade já não é rentável para o cafeicultor, pois o mercado especializado está cada vez mais exigente quanto a uma matéria-prima mais competitiva e de alto valor. No entanto, o mercado do café de qualidade comercial pode representar uma oportunidade para garantir a venda dos grãos, pois nesse segmento a rentabilidade depende de fatores como os custos de produção, a volatilidade dos preços, o rendimento dos cafeeiros, entre outros.

vista de uma área de fazenda localizada em grande altitude

Explorando a relação entre o solo e a altitude

A altitude também determina as condições do solo. Haida diz que em altitudes elevadas, os solos têm a vantagem de apresentar uma acidez moderada e são mais ricos em matéria orgânica devido ao alto grau de umidade, maior sombra e menos desmatamento. Em contraste, nas áreas de baixa altitude, a densidade de sombra por hectare é menor nas parcelas e a erosão é maior, o que significa que o solo exigirá uma maior adição de nutrientes. No entanto, Fanny considera que não se pode generalizar por existirem algumas altitudes baixas com uma maior quantidade de matéria orgânica.

Ela diz que a implementação de um sistema agroflorestal é uma alternativa eficiente para revitalizar os solos. Os cafezais cultivados sob sombra desempenham um papel importante ao contribuir para a manutenção da fertilidade do solo, a redução da erosão, o reciclo de nutrientes e o fornecimento abundante de matéria orgânica. Na prática da agrofloresta, são considerados diversos fertilizantes orgânicos, como o vermicompostagem (polpa de café processada com minhocas) e o composto de polpa, que têm o potencial de melhorar a qualidade do solo.

Fanny comenta que “Se a adição de matéria orgânica for aprimorada, seja por meio de compostagem em qualquer altitude, isso terá um impacto significativo tanto no rendimento quanto na qualidade do café”.

Em um estudo conduzido nas regiões de Paraíso, a 1.325 metros acima do nível do mar, e Turrialba, a 602 metros acima do nível do mar, duas importantes áreas cafeicultoras da Costa Rica, foi avaliado o efeito da sombra em relação à altitude, utilizando nove tipos de fertilizantes orgânicos em um viveiro.

Foi observado que as mudas de café cultivadas com os fertilizantes mencionados apresentaram um crescimento mais robusto sob sombra em ambas as altitudes. Entre os tratamentos avaliados, destacaram-se o vermicompostagem, a polpa de café e o bokashi, (composto por uma mistura de casca de arroz, carvão, cal agrícola, melaço, semolina de arroz e esterco de galinha).

Apesar do crescimento vigoroso das plantas em ambas as altitudes, as mudas em altitudes mais baixas demonstraram um crescimento mais acelerado. No entanto, também enfrentaram uma maior desfolha e foram mais afetadas pelo fungo Cercospera coffeicola.

Influência da altitude na secagem

Dependendo da altitude, os processos de fermentação e secagem do café podem ser prolongados ou acelerados. Haida explica que em altitudes baixas, a fermentação é rápida e pode durar entre 8 e 14 horas. Por outro lado, nas áreas mais altas, a temperatura diminui durante a noite, estendendo o processo para um período que pode variar de 14 a 22 horas.

Além disso, em altitudes mais elevadas, o tempo de secagem será maior devido a uma maior incidência de chuvas. A secagem é uma das etapas críticas do café por afetar diretamente os atributos sensoriais da xícara final. Por essa razão, requer um maior controle.

Haida recomenda o uso de estufas, galpões ou secadores com fitotoldos (regulam a luz solar e protegem contra o excesso de calor e os raios UV) para secar os grãos, a fim de reduzir o impacto das flutuações de temperatura, já que o café é sensível às condições meteorológicas extremas.

No entanto, não há uma relação direta entre a altitude e a qualidade do grão. Em uma pesquisa realizada no vale do Alto Mayo, no Peru, foram selecionadas cinco fazendas em diferentes altitudes (873, 1.079, 1.248, 1.348 e 1.430 metros acima do nível do mar). O café foi submetido à secagem tradicional e à secagem mecânica. Os resultados mostraram que, quanto maior a altitude, maior era o tempo de secagem em ambos os métodos, mas isso não afetava a qualidade.

Saiba como a gestão da água influencia a produtividade do café

Conhecer a altitude da fazenda pode ajudar os cafeicultores a tomarem as melhores decisões em relação à produção de seu café. A escolha da variedade, a nutrição do solo e da cultura, o controle de pragas e doenças e a margem de lucro serão determinados pelas condições geográficas da fazenda.

É importante ressaltar que uma plantação que se encontra abaixo de 1500 metros acima do nível do mar pode produzir café de qualidade especial. Dominar o controle da sombra, escolher os insumos agrícolas apropriados e seguir as boas práticas de processamento farão com que seu café se destaque por sua singularidade e conte a história de sua fazenda.

Você gostou deste artigo? Então leia sobre Como o mapeamento de campo aumenta o lucro dos cafeicultores.

Créditos das imagens: Tatiana Guerrero

PDG Brasil

Tradução Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

The post Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura https://perfectdailygrind.com/pt/2024/05/24/sistemas-de-irrigacao-cafe/ Fri, 24 May 2024 07:05:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14317 A água desempenha um papel fundamental na produção de café, e os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes nas regiões produtoras. Desde chuvas irregulares até secas prolongadas, os cafeicultores enfrentam inúmeros desafios. Sem o suporte de sistemas de irrigação eficazes, eles ficam vulneráveis ​​às condições climáticas imprevisíveis, o que pode impactar negativamente […]

The post Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura appeared first on PDG Brasil.

]]>
A água desempenha um papel fundamental na produção de café, e os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes nas regiões produtoras. Desde chuvas irregulares até secas prolongadas, os cafeicultores enfrentam inúmeros desafios. Sem o suporte de sistemas de irrigação eficazes, eles ficam vulneráveis ​​às condições climáticas imprevisíveis, o que pode impactar negativamente a qualidade e o volume da safra.

Conversei com um produtor e um engenheiro agrônomo para entender melhor como os sistemas de irrigação são aplicados na cafeicultura, as estratégias para lidar com os desafios do clima e os modelos de rega mais comuns. Continue lendo para saber mais.

Leia também: A importância dos sistemas de doação de água para pequenos cafeicultores

O que é um sistema de irrigação?

Muitas vezes usamos a água irracionalmente, mesmo que ela seja um recurso essencial para a atividade agrícola. Isso pode causar prejuízo e ocasionar falta de recursos hídricos. A agricultura adotou os sistemas de irrigação como uma forma de otimizar o uso da água. 

Essas instalações técnicas visam fornecer água o suficiente para os cultivos. Geralmente, essas estruturas fornecem os serviços de captação (águas superficiais e subterrâneas), condução e, em alguns casos, armazenamento e distribuição nas fazendas. 

Pedro Morales Mijangos, engenheiro agrônomo e produtor de café na Guatemala, explica que esses sistemas fornecem o volume de água que as plantas exigem para evitar o estresse hídrico e obter um maior rendimento e qualidade no grão.

Aspersão, gotejamento, inundação ou canhão de água estão entre os mais comuns, diz Pedro, embora haja várias outras possibilidades em termos de sistema. É comum encontrar locais que não possuam infraestrutura de instalação e manejo correto, então é importante que o produtor escolha o método que funcione melhor para ele. 

Quais as vantagens dos sistemas de irrigação?

Os sistemas de irrigação não apenas garantem a disponibilidade de água durante as baixas temporadas e secas, mas também têm uma série de outros benefícios que afetam os aspectos produtivo, econômico, ambiental e social da cafeicultura.

De acordo com Pedro, do ponto de vista agronômico, os sistemas de irrigação permitem suprir a deficiência de água em diferentes etapas fenológicas das plantações de café, como floração, crescimento vegetativo, desenvolvimento do fruto e maturação. 

Isso resulta em uma floração mais homogênea e pode reduzir a necessidade de múltiplos cortes durante o ciclo de cultivo. “Proporcionamos a água com o sistema de irrigação para garantir uma floração muito mais homogênea e, com ela, fazer apenas um ou dois cortes e que não tenhamos tantas florações num ciclo”, ele explica. 

Além disso, a fertirrigação, que consiste em dissolver fertilizantes na água de irrigação, permite uma distribuição mais eficiente dos nutrientes para as plantas, reduzindo a dependência de mão de obra e garantindo o desenvolvimento otimizado das plantações.

Nery Gonzalez Hernández é produtor de café na Finca Caribal, localizada em La Paz, Honduras. Ele conta que, no passado, os cafeicultores se baseavam em padrões de estações mais previsíveis para planejar suas compras e manter uma produção de café estável. Mas é claro que esses padrões foram muito alterados pela crise climática. 

Garantindo a continuidade das lavouras

Diante dessas mudanças, ficou mais importante e necessário implementar modelos de irrigação para garantir que as plantas tenham a água necessária no momento em que precisarem. “Isso assegura, acima de tudo, a segurança de alguns cultivos. No café, você pode agendar o sistema de irrigação e fazer com que a planta floresça em períodos mais curtos. Isso permite uma programação melhor do período de colheita”, ele explica. 

Os sistemas de doação de água também promovem a diversificação de alimentos e de ingredientes adicionais fora do tempo da colheita. “Por exemplo, cultivos de tomate e pimentões são possíveis quando não há tanta produção, e o mercado está sempre os demandando”, acrescenta Pedro. 

Os sistemas de irrigação na produção de café

A adoção de sistemas de irrigação na cafeicultura pode trazer diversos benefícios, especialmente em regiões onde as condições climáticas são imprevisíveis e as chuvas são irregulares. Enquanto a cafeicultura brasileira tem implementado esses sistemas há décadas, outros países latino-americanos também têm experiência nesse campo desde os anos 80 e 90.

No entanto, a adoção desses sistemas ainda não é generalizada em todos os países produtores de café na região. Por exemplo, Nery menciona que a porcentagem de cafeicultores em Honduras que utilizam sistemas de irrigação é mínima em comparação com os produtores de hortaliças, que estão mais avançados nesse aspecto. O mesmo é observado na Colômbia, onde a maioria das plantações de café ainda depende exclusivamente da chuva.

Dados da FAO indicam que, em 2018, a superfície irrigada na América Latina representava apenas 7% da superfície total cultivada, o que corresponde a cerca de dois milhões de hectares. Isso destaca um grande potencial de expansão dos sistemas de irrigação na região, especialmente na cafeicultura, onde o acesso à água é crucial para garantir a produtividade e a qualidade dos cultivos.

Que tipos de soluções são oferecidas aos produtores?

Os sistemas de irrigação oferecem aos produtores uma solução crucial para mitigar os efeitos do estresse hídrico nas plantações de café. “É um sistema de auxílio em um momento em que a planta está passando por momentos importantes como floração e crescimento. Isso certamente se converte em mais produção e crescimento”, Afirma Pedro.

Além disso, ele destaca que as propriedades organolépticas do café também são realçadas por uma boa oportunidade de acesso à água. “O grão concentra mais sólidos solúveis, o que influencia positivamente o sabor, a textura, o corpo e o equilíbrio. E tudo isso depende da planta aproveitar melhor os nutrientes disponíveis no solo”.

O que é preciso para implementar um sistema como esse?

É essencial realizar uma análise detalhada das condições locais e das necessidades específicas das plantações. Isso envolve considerar fatores como as condições climáticas, topografia, disponibilidade de água e as características do cafezal. 

“É preciso avaliar a aptidão e capacidade do cafezal. Podemos expor plantas possivelmente inadequadas para certo sistema a um metabolismo muito alto ou condições de alta demanda. Isso pode fazer mais mal do que bem, no fim das contas”, explica Pedro.

Além disso, os produtores precisam garantir que tenham uma fonte de água confiável e sustentável, como um rio, poço ou tanque, com um nível constante ao longo das estações. “É crucial realizar testes laboratoriais na água para garantir que a adequação para uso na irrigação, verificando a presença de metais pesados, altas concentrações de sódio ou condutividade elétrica elevada”, ele acrescenta.

O planejamento do design do sistema também é fundamental, considerando a infraestrutura necessária. Devemos adaptar tubos, válvulas, bombas, aspersores ou gotejadores às condições locais e às necessidades das plantações. “Por exemplo, se a fonte de água estiver abaixo do nível das plantações, podem ser necessários tanques ou sistemas de elevação para transportar a água até as áreas alvo” ele complementa.

A manutenção regular do sistema é essencial para garantir seu funcionamento ideal ao longo do tempo, e é importante capacitar os operadores para garantir que saibam como operar e manter adequadamente o sistema de irrigação.

Quais são as limitações possíveis?

Também há uma contrapartida nos sistemas de irrigação, que implica um retorno econômico e o momento adequado da implantação. Uma das variáveis para os produtores acessarem essas tecnologias é o preço. A maioria dos agricultores que se dedicam à cafeicultura trabalham em pequena escala, vivem em condições de pobreza e tem um baixo poder aquisitivo, o que reduz as oportunidades de acesso a crédito em instituições financeiras

De acordo com Nery, os recursos econômicos para comprar tecnologia com retorno ideal geralmente ficam nas mãos dos grandes cafeicultores. “Estes certamente têm mais acesso e facilidade a recursos tecnológicos. E com isso conseguem financiamentos favoráveis por outras fontes que não sejam necessariamente a produção de café”, ele explica.

Outro obstáculo comum é a própria condição topográfica do local de plantio. Ele sinaliza que em Honduras 40% das plantações estão cultivadas em locais altos, o que dificulta o sistema de irrigação. 

A cafeicultura do futuro enfrenta condições ambientais mais erráticas, que podem desencadear um esgotamento do recurso hídrico. Os produtores devem estar cientes de que a água é um elemento vital e insubstituível na agricultura. E que isso legitima a necessidade de implementar sistemas para que o uso da água seja eficiente e melhore as condições produtivas. Além de tornar mais competitivo o negócio em tempos de mudanças climáticas. 

Você gostou deste artigo? Confira também os males das águas: de contaminantes a fertilizante orgânicos

Créditos das fotos: Yenny Ballesteros. 

PDG Brasil

Traduzido por Diego Oliveira

Você quer ler mais artigos como este? Assine nossa newsletter!

The post Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura appeared first on PDG Brasil.

]]>
Consumidor: cinco ideias para reaproveitar resíduos do seu café https://perfectdailygrind.com/pt/2024/04/29/residuos-borra-cafe/ Mon, 29 Apr 2024 07:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14219 Para muitos, beber café todos os dias faz parte da rotina. Mas o que fazer com os resíduos resultantes desse processo? A borra, que é o pó usado após coar o café, pode ter diversas aplicações além do descarte no lixo comum.  Com a ajuda de especialistas, compilamos uma lista de diferentes maneiras de aproveitar […]

The post Consumidor: cinco ideias para reaproveitar resíduos do seu café appeared first on PDG Brasil.

]]>
Para muitos, beber café todos os dias faz parte da rotina. Mas o que fazer com os resíduos resultantes desse processo? A borra, que é o pó usado após coar o café, pode ter diversas aplicações além do descarte no lixo comum. 

Com a ajuda de especialistas, compilamos uma lista de diferentes maneiras de aproveitar esse subproduto, desde usos agronômicos até artísticos. Continue lendo para descobrir todas as possibilidades.

Leia também: Fertilização e fabricação de fertilizantes orgânicos a partir de plantas

Por que é importante reaproveitar esses resíduos?

A indústria do café, como muitas outras, enfrenta desafios ambientais significativos. Apenas 5% do peso total das cerejas é utilizada para fazer uma xícara da bebida, deixando uma quantidade considerável de resíduos.

Produtores, torrefadores e consumidores estão cada vez mais conscientes da importância de contribuir para a sustentabilidade ambiental do setor, evitando que esses resíduos acabem em aterros sanitários ou poluam rios.

Dolores del Castillo, pesquisadora do Conselho Superior de Pesquisa Científica da Espanha, destaca que transformar esses resíduos em novos produtos é essencial para reduzir a pegada ambiental da indústria e promover uma abordagem de desperdício zero. “Não é adequado descartar produtos orgânicos nos rios ou no meio ambiente, causando poluição. O ideal é valorizá-los, convertendo-os em novos produtos lucrativos”, ela diz.

Além disso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) destaca a importância de hierarquizar o uso de subprodutos alimentares, com a incineração sendo a opção menos recomendada. Em contrapartida, usos industriais, alimentação animal, compostagem e fertilizantes são considerados as melhores alternativas para o aproveitamento dos resíduos.

Quais outros resíduos são gerados no preparo do café

Ao preparar café, cada método resulta em diferentes tipos de resíduos. Por exemplo, com a prensa francesa, o pó de café pode ser reutilizado para uma segunda infusão. Já com métodos de filtragem por gotejamento, como V60, Chemex ou Kalita, surgem dois tipos de resíduos: a borra de café e o filtro.

Dolores destaca que há muitas opções de segunda aplicação para os filtros de café. Por serem absorventes e sem fiapos, eles são reutilizados como toalhas demaquilantes, absorventes de óleo de frituras, ou até mesmo para limpeza de vidros e espelhos. 

Além disso, funcionam como recipientes para ambientadores naturais ou filtros para preparar bebidas alternativas como sucos e chás. Amaia Iriondo De Hond, pesquisadora de pós-doutorado, ressalta a possibilidade de lavar, secar e reutilizar os próprios filtros.

No entanto, as cápsulas ou doses únicas usadas em máquinas automatizadas representam um desafio ambiental significativo. Na Espanha, milhões de cápsulas são utilizadas diariamente. Algumas empresas, como a Nespresso, oferecem programas de reciclagem, mas nem todos os consumidores ao redor do globo têm acesso a eles.

Diante desse cenário, muitos têm buscado maneiras criativas de reutilizar as cápsulas, transformando-as em artesanato, como cortinas, chaveiros, vasos de flores e brinquedos. Essa abordagem demonstra como é possível aproveitar as características únicas das cápsulas para criar produtos úteis e decorativos.

Os diferentes usos dos resíduos de café

Segundo a pesquisa “Conscientização Ambiental sobre Usos Alternativos da Borra de Café”, conduzida pela Universidade de Antioquia em 2019, cada xícara de café produz cerca de 30 gramas de borra.

Além disso, a borra de café é rica em compostos orgânicos, como fibra alimentar (47%), gordura (24%), polissacarídeos (13%) e proteínas (11%). Esses componentes oferecem diversas possibilidades de reutilização, dispensando aditivos químicos ou custos extras.

Fertilizantes para plantas

Fabiola Serrano Jiménez, barista há oito anos, diz que, em geral, os resíduos resultantes de seus preparos tendem a ir parar em seu jardim como fertilizante para as plantas. “O solo melhora muito e as plantas ficam muito mais verdes e maiores”, descreve.

Esse é um dos usos mais comuns para a borra de café, já que ela contém minerais e nutrientes essenciais, como nitrogênio, potássio, cálcio e magnésio, que enriquecem o solo. Para transformar a borra de café em adubo orgânico, é recomendável espalhá-la sobre uma superfície plana e deixar secando por cerca de 24h, garantindo uma secagem uniforme e prevenindo o crescimento de fungos.

Ao aplicar a borra de café como cobertura morta, é importante não exagerar na quantidade, pois o uso excessivo pode acidificar o solo, prejudicando o crescimento das plantas, especialmente nas bordas e extremidades das folhas. Uma alternativa segura é combinar a borra de café com composto orgânico, ajudando a neutralizar quaisquer riscos que as plantas possam enfrentar apenas com a aplicação do resíduo de café.

Além disso, a borra também serve como repelente natural para formigas, caracóis e lesmas. Basta espalhar a mistura ao redor da planta em um formato circular para manter essas pragas afastadas.

Esfoliante de pele

Às vezes, a pele enfrenta desafios devido à exposição solar, poluição e outros fatores. Felizmente, o café oferece uma solução natural, graças às suas propriedades antioxidantes, emolientes e hidratantes. Uma esfoliação à base de café não apenas limpa e cuida da pele, mas também remove células mortas, melhora a circulação sanguínea, reduz a celulite e retarda o envelhecimento.

A preparação deste esfoliante é rápida e fácil. Basta misturar uma colher de sopa de borra de café com uma quantidade equivalente de creme hidratante, mel, óleos naturais ou água até obter uma pasta homogênea.

Para quem tem pele mista ou oleosa, é aconselhável usar o esfoliante uma vez por semana. Já para peles secas, recomenda-se não exceder duas aplicações por mês, com um intervalo de 15 dias entre cada uma.

Purificador de ar

O cheiro forte do café ajuda a neutralizar aromas incômodos que acabam invadindo as casas. Você só precisa de um recipiente descoberto e uma quantidade de grãos secos e moídos para se livrar dos maus odores. Outra opção é aplicar uma porção da borra no fundo da cesta de lixo.

Ao cozinhar alimentos com odores fortes como cebola, peixe ou alho, provavelmente água e sabão não serão suficientes para remover o cheiro completamente. Nesse caso, a borra de café pode ser o plano B. Basta esfregar as mãos com ela e enxaguar com bastante água.

Criações artísticas

As tintas não são a única substância usada na arte. Pode-se usar gotas de café para moldar criações artísticas. Esse resíduo é útil em telas inéditas como cerâmicas, chapas, madeiras e até folhas secas. Um exemplo é o artista Ghidaq al-Nizar, que usa duas colheres de café reciclado para cada obra de arte.

As moléculas de melanoidina estão presentes no café e são responsáveis por produzir o tom marrom do grão moído. Esse pigmento tem potencial para tingir tecidos, fios ou móveis, diz Dolores.

Uso da Borra na alimentação

Dolores alerta que antes de usar a borra nas aplicações anteriores, o melhor destino que se pode dar a ela é o organismo humano. “A melhor coisa que você pode fazer é comê-la. Indica-se sua ingestão para pessoas com falta de fibra alimentar, essencial sobretudo para estimular o crescimento da flora microbiana que tem um efeito positivo na nossa saúde”, explica.

“O fato de organizações reguladoras internacionais, incluindo a Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a Food and Drug Administration (FDA), considerarem que se pode usar a borra como ingrediente alimentar é um impulso para a sustentabilidade do sector cafeeiro e a diversificação e rentabilidade”, destaca Dolores.

Sugestão de uso

Após uma longa investigação, o grupo formado por Amaia e Dolores verificou que a borra de café é uma fonte natural de fibra antioxidante, aminoácidos essenciais e açúcares de baixo índice glicêmico, que servem como ingrediente alimentar em produtos de panificação e confeitaria. Posteriormente, desenvolveram uma receita de biscoito que utiliza borra de café como matéria-prima. 

Esta receita, patenteada, tem elevada densidade nutricional e ajuda a reduzir o risco de contrair doenças crônicas, como obesidade e diabetes, e a adormecer mais facilmente, explica Amaia. É possível utilizar borra de café que se obtém a partir de diferentes métodos de preparo ou até mesmo café solúvel. Em qualquer caso, deve estar seca. Para retirar a água mais rapidamente, pode-se secar no forno em temperatura acima de 185 °C e guardar em local fresco.

Muitos atores na cadeia de valor do café estão preocupados em reduzir o seu impacto ambiental através da implementação de melhores práticas . Agora é a vez do consumidor.

Muitos atores na cadeia de valor do café estão preocupados em reduzir o seu impacto ambiental com a implementação de melhores práticas. Agora é a vez do consumidor.

Para além dos usos domésticos que se pode dar aos filtros, também é possível usar esse subproduto como matéria-prima em diversas indústrias que contribuem para a diversificação do rendimento das cafeterias. E são elas que normalmente fornecem estes resíduos às empresas.

Para reaproveitar esse subproduto não é necessário incorrer em despesas ou produtos de difícil acesso, depende mais da criatividade e do empoderamento dos consumidores para que esses resíduos não acabem no lixo.

Gostou deste artigo? Então leia sobre qual método de filtragem é melhor para você. Quatro anos depois

Créditos das fotos: Tatiana Guerrero.

PDG Brasil

Traduzido por Diego Oliveira

Quer ler mais artigos como este? Assine nossa newsletter aqui!

The post Consumidor: cinco ideias para reaproveitar resíduos do seu café appeared first on PDG Brasil.

]]>
Resíduos da produção de café: Uma alternativa sustentável https://perfectdailygrind.com/pt/2024/03/22/residuos-prdducao-cafe/ Fri, 22 Mar 2024 08:06:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14089 Embora vital para economias locais, a cafeicultura gera grandes quantidades de resíduos, tornando-se um desafio ambiental. Entre outras razões, estágios desta cadeia produtiva geram resíduos que, se não gerenciados corretamente, podem causar problemas fitossanitários e ambientais. Por outro lado, os baixos preços do café muitas vezes não garantem lucro aos produtores, e eventualmente nem chegam […]

The post Resíduos da produção de café: Uma alternativa sustentável appeared first on PDG Brasil.

]]>
Embora vital para economias locais, a cafeicultura gera grandes quantidades de resíduos, tornando-se um desafio ambiental. Entre outras razões, estágios desta cadeia produtiva geram resíduos que, se não gerenciados corretamente, podem causar problemas fitossanitários e ambientais.

Por outro lado, os baixos preços do café muitas vezes não garantem lucro aos produtores, e eventualmente nem chegam a cobrir os custos da produção ou garantir uma boa qualidade de vida aos produtores. No entanto, os subprodutos do café, da planta até a xícara, mostraram potencial para diversificar a renda dos produtores, sendo de interesse para diversos setores.

Conversei com produtores, empresários e pesquisadores sobre o potencial e os desafios do aproveitamento dos subprodutos do café. Continue lendo para saber mais. 

Leia também nosso artigo sobre biochar: Como as fazendas podem enfrentar as mudanças climáticas com os resíduos da fazenda.

Produção de madeira de café

O café é uma das bebidas mais consumidas globalmente, porém, usa-se apenas 5% do peso da cereja no preparo, deixando 95% como resíduos orgânicos. Um exemplo é a madeira produzida durante as reformas das plantações de café, geralmente usada como lenha, na produção de carvão ou como matéria orgânica para fertilização. Uma alternativa sustentável para esses resíduos é a produção de madeira a partir dos caules do cafeeiro, uma prática adotada pela Londoño’s Coffee Crafts, na região de Santa Rosa de Cabal (Colômbia), conforme relata Mauricio Londoño Sepúlveda.

Maurício é cafeicultor e gerente geral da empresa. Ele conta que há uma década, a empresa implementou o reaproveitamento dos caules do café na fabricação de móveis e acabamentos para design de interiores. Pesquisas do Cenicafé indicam que a madeira de café é resistente e densa, podendo ser utilizada na fabricação de diversos produtos, como móveis, cadeiras, estantes e pisos. 

De acordo com Maurício, a vida útil desses móveis gira entre 20 e 30 ano e a geração de CO₂ na cafeicultura poderia ser reduzida consideravelmente a partir da industrialização de caules e gravetos.

Além dos móveis, a empresa identificou outras oportunidades de negócio, como a fabricação de espetos para assar carne, aproveitando o sabor único gerado pela fumaça da madeira de café. “Quando a brasa e o carvão estão muito quentes, eles (os chefs) jogam a madeira na brasa e ela começa a gerar fumaça, que penetra na carne e dá sabor”, explica Maurício.

Ele também menciona a fabricação de ossos para cães a partir dos talos de café, destacando os benefícios naturais dessa fibra para os animais.”É uma fibra natural que ajuda o animal, tanto no desenvolvimento dos dentes, quanto na proteção e na remoção do tártaro dos dentes que começa a ser gerado pela alimentação”.

Usos alternativos para a casca e a polpa 

A casca e a polpa do café estão se tornando uma valiosa fonte de oportunidades em diversos setores, desde a agricultura até a indústria alimentícia. De acordo com Andrés Bahamón, pesquisador no Centro Surcolombiano de Investigación de Café (CESURCAFÉ), muitas vezes os resíduos se acumulam nas fazendas e, sem tratamento, causam mau cheiro e contaminação do solo e dos rios.

Elas representam cerca de 29% do peso do fruto e são compostas de proteínas, gorduras e carboidratos. Isso as torna ideais para a produção de biofertilizantes e fontes de energia e em diversos produtos prontos para consumo humano. “Fizemos análises químicas e o conteúdo de cafeína é semelhante ao dos grãos, além de ter outros compostos de interesse nutricional”, diz Nelson Gutiérrez Guzmán – também pesquisador do CESURCAFÉ.

Com o devido processamento, a casca e a polpa ainda podem ser transformadas em vários produtos, como bebidas alcoólicas, farinha sem glúten e até mesmo substrato para o cultivo de cogumelos. A ONG Slow Food Bolívia, inclusive, criou um livro de receitas à base deste subproduto. Essas iniciativas não apenas reduzem o desperdício, como promovem uma abordagem sustentável e integrada em toda a cadeia de produção. 

A casca e a polpa também são bons alimentos para diversos animais. De acordo com uma publicação da Organização Internacional do Café (OIC), a polpa pode substituir em até 20% os concentrados comerciais usados na produção de rações, reduzindo em 30% seu custo. Deve-se observar, no entanto, que elas precisam ser pré-tratadas antes do oferecimento em pequenas porções para reduzir o risco de mortalidade dos animais. Andrés explica que a casca contém cafeína e polifenóis que podem afetar a saúde animal. “Deve-se promover uma fermentação da casca por 24h para desintegrar esses compostos. Só então pode-se misturar com a ração usual numa taxa de até 40%.”

Os benefícios da mucilagem para a saúde

A mucilagem é uma camada que envolve a semente e uma forma de removê-la é durante o processamento do café lavado. Nas fazendas sem sistemas de tratamento, as águas residuais do processamento vão para nascentes e rios, causando poluição e prejudicando a fauna e a flora locais. 

Segundo a Specialty Coffee Association (SCA), as águas residuais do processamento úmido do café poluem até 40 vezes mais do que as águas residuais urbanas. No entanto, o agronegócio optou por dar uma segunda chance à mucilagem dado que algumas pesquisas revelaram que ela contém antioxidantes, polifenóis e ácido clorogênico. Essas substâncias podem melhorar a regeneração das células do corpo e retardar o envelhecimento. 

Daniela Maya, produtora de café de quinta geração e diretora de comércio exterior do grupo empresarial colombiano ACCRESCO, explicou que há anos atuam como embaixadores da economia circular, graças ao gerenciamento dos subprodutos do café que cultivam. Seu principal projeto é o concentrado de mucilagem, desenvolvido pela empresa Desarrollos Ecológicos, uma aliança entre a ACCRESCO e a Sanadores Ambientales. Ele é usado como matéria-prima em cosméticos, produtos farmacêuticos e alimentos.

“Temos uma planta que concentra a mucilagem usando evaporação a vácuo, preservando os compostos importantes sem oxidá-los. No setor de cosméticos, desenvolvemos sabonetes e shampoos, especialmente para a pele, e também cremes. É ótimo, pois os antioxidantes podem ser usados tanto internamente quanto na pele”, Daniela afirma. Os produtores também podem converter a água da mucilagem em fertilizante orgánico ou em alimento para porcos.

Pergaminho, um resíduo durável 

O pergaminho, também conhecido como cisco, é o que sobra do grão após o beneficiamento. Normalmente, o usamos como fertilizante orgânico, mas algumas empresas estão adotando-o como na queima para aquecer o secador, reduzindo resíduos e a quantidade de outros combustíveis, além de diminuir as emissões de gases de efeito estufa.

Andres destaca que o pergaminho possui propriedades antimicrobianas que o tornam resistente à degradação. Por isso, a CESURCAFÉ e a Universidad del Cauca se uniram em um projeto para criar recipientes, bandejas de alimentos e embalagens biodegradáveis. 

Além disso, a empresa Maeco, em parceria com pesquisadores da Universidade dos Andes, na Colômbia, desenvolveu um material que combina PVC e cisco de café para construir moradias sociais. Esse material, composto por 60% de resíduos de café, é versátil e tem uso em diversos projetos arquitetônicos, industriais ou decorativos, substituindo o concreto e, eventualmente, aço, alumínio, tijolo e madeira também.

Outra ideia inovadora é o desenvolvimento de briquetes compactos com pergaminho para cozimento de alimentos ou combustão industrial. Eles competem com a lenha porque usam menos tempo e material para cumprir a mesma função. 

Vantagens econômicas para os produtores de café 

Aproximadamente 70% dos cafeicultores enfrentam dificuldades com a produção de café como única fonte de renda. Utilizar os subprodutos do café para gerar receita adicional pode diminuir essa dependência, mitigando os impactos das flutuações de preços no mercado. O professor Nelson afirma: “Quando eu estava visitando a Bolívia, alguns produtores recebiam mais receita com a venda da sultana do que com a venda do próprio café. No caso de Mauricio, a venda de móveis gera uma margem de lucro de 30%. 

Os resíduos do café oferecem oportunidades de valor agregado, mas processá-los exige recursos que muitos produtores não possuem. Os caficultores também podem usar as cooperativas ou associações de café, pois algumas podem servir como centros de coleta de subprodutos. Já Maurécio sugere que pequenos cafeicultores forneçam subprodutos para indústrias maiores ou foquem em produtos artesanais.

Ele me conta que a madeira que sua fazenda produz não é suficiente e que ele recorre a outros produtores para garantir o suprimento. O valor que paga está entre US$ 0,50 e US$ 0,80. 

Falta de clareza na regulamentação

Embora muitas leis busquem regulamentar o descarte e tratamento de resíduos agrícolas para mitigar os impactos ambientais, ainda existem lacunas na regulamentação para o uso desses materiais. Mauricio destaca que na Colômbia não há regras para a reutilização da madeira de café. “Nenhuma lei fala nada sobre o transporte de madeira de café. É muito difícil entender como podemos exportá-la, comercializá-la e também para trazê-la para os Estados Unidos.”

Ele se une à Daniela, que afirma: “embora a regulamentação do café seja responsabilidade da FNC, quando se trata de subprodutos é necessário analisar outras regulamentações. Temos que saber como obter orientação, como pesquisar. Cada produto tem suas particularidades e as informações estão sempre disponíveis.” 

É crucial para produtores e empresários entenderem todos os aspectos dos subprodutos e seu uso pretendido. Isso ajuda a evitar erros ou obstáculos na comercialização. Andrés menciona que, para exportar ou comercializar a casca para uso alimentício, é importante considerar que ela ainda não está regularizada na União Europeia como produto seguro para consumo humano. “A falta de padrões específicos dificulta as coisas, especialmente nos mercados europeus”, ele diz.

A produção sustentável de café vai além da rentabilidade da colheita. Ela envolve também a proteção dos recursos naturais, da biodiversidade e o desenvolvimento socioeconômico das regiões produtoras. Processar resíduos de café exige infraestrutura e investimento, mas não deve impedir iniciativas em sua fazenda.

Ao considerar explorar esses recursos, avalie os custos, busque parcerias e entenda o mercado. Isso ampliará suas oportunidades de gerar receita adicional e reduzir a dependência dos preços do café.

Crédito das fotos: Londoño’s Coffee Craft, Tatiana Guerrero, CESURCAFÉ.

Gostou deste artigo? Aprenda Cómo criar uma industria mais verde com a borra do café.

PDG Español

Quer ler mais artigos como esse? Inscrevfa-se em nosso boletim semanal aquí!

The post Resíduos da produção de café: Uma alternativa sustentável appeared first on PDG Brasil.

]]>
Por que há comercio de café verde entre países produtores? https://perfectdailygrind.com/pt/2022/12/07/comercio-de-cafe-verde-paises-produtores/ Wed, 07 Dec 2022 11:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=11843 De modo geral, os países produtores de café têm como objetivo exportar para os principais países consumidores e aumentar a demanda internacional. Mas o comércio de café verde entre os países produtores também é uma realidade.  Algumas origens importam café para satisfazer certas necessidades específicas de sua indústria ou do mercado interno, ao mesmo tempo em que há os que simplesmente não produzem o […]

The post Por que há comercio de café verde entre países produtores? appeared first on PDG Brasil.

]]>
De modo geral, os países produtores de café têm como objetivo exportar para os principais países consumidores e aumentar a demanda internacional. Mas o comércio de café verde entre os países produtores também é uma realidade.

 Algumas origens importam café para satisfazer certas necessidades específicas de sua indústria ou do mercado interno, ao mesmo tempo em que há os que simplesmente não produzem o suficiente para cobrir sua demanda doméstica.

Essa dinâmica comercial é um assunto polêmico discutido pelos produtores de café há décadas. Muitos reconhecem isso como uma forma de os países produtores gerarem mais renda ao mesmo tempo que há quem aponte desvantagens nessa prática.

Para saber mais, conversei com quatro especialistas do setor sobre esse tipo de comércio de café verde. Continue a ler para saber o que disseram.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre como podemos aumentar o consumo de café nos países produtores.

Grãos de café secando em terreiro

Análise de dados comerciais entre países produtores

José Dauster Sette, ex-diretor executivo da Organização Internacional do Café (OIC), conta que entre 2015 e 2018 o mundo exportou em média cerca de 121 milhões de sacas de 60kg por ano. Essas quantidades incluem café arábica e robusta verde, torrado e solúvel.

Da cifra acima, aproximadamente 8,5 milhões de sacas são comercializadas entre países produtores, o que representa cerca de 7% do total das exportações. Nesse cenário, o robusta verde foi a categoria mais comercializada, totalizando pouco menos de 5 milhões de sacas (cerca de 59% do mercado).

O café verde para solúvel ficou em segundo lugar, com 1,7 milhão de sacas, o equivalente a 21%. O arábica representou 19% e o café torrado apenas 0,43%. José explica: “Isso mostra que o comércio é principalmente concentrado em solúvel, por razões de processamento, e robusta por razões de preço e qualidade”.

“Quando subdividimos o comércio de café verde entre os países produtores nesses diferentes segmentos, as proporções são bem diferentes do comércio geral. No total, o café solúvel representa 21% das exportações em comparação com 8% das exportações globais”, ele acrescenta.

Curiosamente, José aponta que 74% de todo o café exportado pelo Vietnã, Brasil e Indonésia foi para outros países produtores nesse período. Outro grande exportador é Honduras, que despachou 460.000 sacas para países produtores, incluindo México, Peru, Índia e Colômbia.

Tabela contendo dados sobre as exportações de café verde

Por que há comércio de café verde entre países de origem

João Mattos é o Coordenador Latino-Americano de Produção e Mercado de Café da CLAC Comércio Justo, uma rede que representa todas as organizações certificadas de Comércio Justo da América Latina. Ele explica que há dois motivos pelos quais os países produtores importam café.

Em primeiro lugar, diz ele, atende a demanda doméstica e fornece estoques para o setor de café solúvel, que costuma ser popular. Em segundo lugar, o preço do café recebido é frequentemente muito mais barato devido à sua qualidade inferior.

José concorda, mas acrescenta que é difícil definir o destino das importações. Depois que os grãos entram em um país, é difícil rastreá-los. Portanto, não se sabe quanto dele é usado para solúvel em comparação com quanto é usado para misturas, por exemplo.

Vejamos o México, nono maior produtor de café do mundo, como exemplo. De acordo com os números da ICO, sua produção foi de cerca de 4 milhões de sacas desde 2017.

No entanto, entre 2015 e 2018, a quantidade média anual de café verde importado atingiu 715.000 sacas – a terceira maior para os países produtores. Esses grãos vieram principalmente do Brasil, Vietnã e Honduras.

“O Robusta é ideal para fazer café solúvel, porque tem um rendimento de xícara muito maior”, diz José. “Portanto, um saco de robusta produz mais café solúvel do que um saco de arábica.

“Porém, o México não está importando apenas para satisfazer seu mercado interno. Algumas das importações são realmente processadas e re-exportadas como café solúvel, principalmente para a América Central ”, afirma ele.

Vera Espíndola Rafael é economista agrícola e consultora de café baseada no México e Diretora de Desenvolvimentos Estratégicos da Azahar Coffee. Ela explica que seu país possui uma das maiores indústrias de café solúvel da região.

“No México temos duas fábricas e há outra em construção ”, afirma. “É uma planta enorme, uma das maiores da América Latina para café solúvel, simplesmente porque a Nestlé tem uma presença muito forte. Então o café está sendo importado simplesmente porque é mais barato ”.

Em contraste com a produção, o consumo doméstico no México é baixo – cerca de apenas 1,6 kg de café per capita ao ano. A maior parte das importações é destinada ao atendimento da demanda interna de café solúvel, como explica Vera.

Embora nem todos estejam felizes com a situação, diz ela, as enormes exigências de grandes produtores como a Nestlé os deixam com pouca escolha. “Há a crítica de que o café usado deve ser mexicano”, diz Vera. “A Nestlé entende essa parte e alega estar comprometida em comprar mais café mexicano”.

“Mas, ao fim e ao cabo, a produção do México não é suficiente para atender a demanda de uma fábrica como essa.”

A produção de café em alguns países também foi enfraquecida por surtos de doenças, e João diz que o México é um dos países afetados.

Tabela contendo dados do comércio de café verde global

Comércio de café verde: qualidade e preço

Os diferenciais de preços para o café de cada país também são um fator determinante na comercialização do café verde.

Um exemplo é a Colômbia, que é o terceiro maior país produtor de café do mundo. Em 2019, sua produção totalizou quase 14,8 milhões de sacas de 60kg. Destes, 13,7 milhões (93%) foram exportados.

Consequentemente, sobraram apenas 1,1 milhão de sacas (7%) para atender à demanda local. O consumo interno na Colômbia é estimado em cerca de 1,8 milhão de sacas, deixando uma lacuna de cerca de 700.000 sacas. A Colômbia, portanto, tem que importar café de outros países produtores.

Isso também ocorre porque o prêmio que o café colombiano recebe pela qualidade ao exportar internacionalmente é muito maior do que em países vizinhos com qualidade de exportação semelhante. Equivale, em média, a USD  0,26 a mais por libra-peso no mercado internacional.

João explica: “Em janeiro, o sexto destino mais importante para o Brasil era a Colômbia. Acho que  boa parte vai para o mercado interno, mas também é usado para a indústria de café solúvel.”

Em geral, é aceito que as exportações internacionais resultam em melhores preços para os cafeicultores e que o comércio internacional é benéfico para a economia nacional. Isso também se aplica ao comércio entre origens, especificamente quando o país que compra o café pode pagar um preço mais alto do que o mercado local.

“Se você olhar para os diferenciais de preço de diferentes países hoje, é bastante diverso”, acrescenta João. “Temos países com diferenciais negativos como o Brasil e outros grandes diferenciais como a Costa Rica.”

Por causa das diferenças de preços dos cafés de diferentes origens, algumas pessoas até começaram a contrabandear café entre países vizinhos para obter melhores preços.

René León Gómez é Secretário Executivo da Promecafé. Ele explica que essa prática ilegal é surpreendentemente comum em países produtores, especialmente na América Central onde o preço do grão oferecido por um país de origem pode ser inferior ao pago em outras regiões. “Em Honduras, muitas pessoas na indústria de exportação ou comercialização de café reclamavam e constantemente traziam isso à tona”, diz René.

“Eles alegavam que muito café de Honduras estava escapando para a Guatemala por canais ilegais ou informais,mas nem tudo é desconsiderado. As pessoas que comercializam esse café ou os próprios produtores de café têm seus motivos e nós os entendemos”, ele acrescenta.

René finaliza: “Por exemplo, novamente com o café de Honduras, o preço que está sendo pago no mercado nacional pode ser inferior ao preço pago por um comprador – alguém que está pensando em levar o café para a Guatemala ou o México.”

Tabela contendo dados sobre o comércio de café verde no mundo

Benefícios e desvantagens do comércio de café verde entre países produtores

Apesar de todos os benefícios percebidos, existem alguns críticos dessa dinâmica de negociação única. João e José apoiam. Eles dizem que isso dá aos países comerciais a capacidade de fortalecer os laços comerciais, aumentar o fluxo de caixa e agregar valor ao café de qualidade inferior.

“Sempre há alguma preocupação no setor produtor, em termos de importação. Por exemplo, algumas pessoas acham que isso diminui os preços no mercado interno”, diz José.

“Mas acho que, na maioria das vezes, o que entra no país libera café de melhor qualidade para obter preços mais altos no exterior. Então, há uma certa complementaridade. Não vejo isso tanto em termos de ameaça”, ele acrescenta.

Também existem preocupações sobre a qualidade inferior do café comercializado entre os países produtores, que se concentram em não melhorar a qualidade do café consumido internamente. No entanto, em resposta, José explica que a maioria dos países produtores tem pouco poder de compra em comparação e não consegue sustentar um grande mercado de café de alta qualidade.

“Isso é uma realidade”, diz ele. “Devemos fazer algo a este respeito? Sim. Eu olho para o meu país, o Brasil. Era um país com baixo poder aquisitivo e baixa qualidade no café. Com o tempo, programas de melhoria na qualidade e de marketing aumentaram o volume de consumo. Agora está passando por essa fase de diferenciação, com o surgimento dos cafés especiais”.

“Sou a favor de primeiro fazer o mercado crescer e, posteriormente, segmentá-lo e buscar esse tipo de agregação de valor”, ele finaliza.

Vera concorda, dizendo que participou de um estudo relevante. O estudo indica que, nos próximos anos, os preços do café não devem subir. Nesse caso, será necessário estimular o consumo interno de cafés de melhor qualidade. Isso reduziria a pressão sobre os países produtores criada pelo mercado internacional.

“A criação de um programa de promoção do consumo de café teve sucesso tanto no Brasil quanto na Colômbia. Houve treinamento de profissionais e disponibilização de informação para os consumidores e, assim, aumentou-se o consumo de café. Isso levou a uma maior demanda no entendimento dos cafés especiais locais”, ela afirma.

tabela contendo dados a respeito do comécio de café verde

O comércio de café verde entre os países produtores é um fenômeno único no setor cafeeiro que raramente se discute. É, embora complicada, uma forma de os agricultores dos países produtores obterem melhores preços pelo café que cultivam.

São preços que não necessariamente seriam alcançados no mercado interno. Ao mesmo tempo, também ajuda a atender a demanda por café solúvel e o consumo doméstico.

No papel, essa não é necessariamente uma relação negativa. O principal objetivo desses países é garantir um mercado para a produção de seus agricultores e manter uma economia saudável.

No entanto, isso abre uma outra discussão: como os países produtores podem promover o consumo interno de café de melhor qualidade. Isso, por sua vez, melhorará enormemente a subsistência dos cafeicultores locais e a sustentabilidade da produção de café a longo prazo.

Gostou? Então leia nosso artigo sobre o que está impedindo os países produtores de cultivar o consumo de café.

Créditos das fotos: Tatiana Guerrero, OIC.

Postado originalmente no PDG Español.

Tradução: Daniela Andrade.

PDG Brasil

Quer ler mais artigos como este?  Assine a nossa newsletter!

The post Por que há comercio de café verde entre países produtores? appeared first on PDG Brasil.

]]>