22 de maio de 2024

Torradores elétricos de café: vantagens e desvantagens de sua implantação

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Assim como não há uma única maneira de transmitir calor, também não há apenas uma maneira de gerá-lo. Com os avanços tecnológicos, descobriram-se opções mais eficientes para torrar café adotando o que proporciona os melhores resultados e descartando métodos menos eficazes.

Embora essa avaliação possa ser válida em determinados contextos, ela não é estática. E justamente por isso pode ser reformulada conforme o cenário, os recursos disponíveis e os objetivos. Num mundo que enfrenta o esgotamento das reservas de combustíveis fósseis e uma crescente preocupação ambiental, um dos desafios da indústria de torrefação é tornar os torradores elétricos tão funcionais e eficientes quanto os equipamentos a gás.

Para obter uma visão abrangente sobre o assunto, conversei com dois especialistas em torra de cafés. Continue lendo e descubra o que eles pensam sobre torradores elétricos.

Leia também: Como encontrar cafeterias e torrefadores de cafés especiais sustentáveis?

Como funciona a maioria dos torrefadores de café?

Jorge Armando Devia é mestre de torra da colombiana Colo Coffee Roasters. “Nós, através das máquinas, conseguimos otimizar recursos. Portanto, não existe apenas uma marca de torradores”, afirma Jorge.

Ele explica que a maioria das torrefações normalmente opta pelo gás natural como fonte devido ao seu baixo custo, disponibilidade e fácil medição e regulação. “O gás propano é mais eficiente no calor e na radiação; por isso, ajuda a torrar mais rápido”, acrescenta Jorge. Ele destaca ainda que se não forem tomados os cuidados necessários em relação à instalação e manutenção, também pode ser perigoso.

Sergio Ríos é CEO da Voltumachine, empresa localizada na Dinamarca e com presença na América Latina que se dedica à construção de torradores de café e à certificação de processos de torra baseados no controle de emissões de carbono. Ele afirma que ao redor do mundo é muito mais comum o uso de torradores a gás. Por outro lado, ele conta que, agora, os torradores elétricos começam a cada vez mais se destacar no mercado, mas ainda com baixa eficiência energética.

Características dos torradores elétricos

Sergio destaca que empresas internacionais estão inovando no fornecimento de energia elétrica para torrefadores. Alguns utilizam resistências elétricas para gerar calor, enquanto outras optam pelo método de indução eletromagnética. Ele considera esta última opção mais eficiente devido ao menor consumo de energia.

Por outro lado, Jorge observa que torradores elétricos são encontrados principalmente em segmentos como torrefação artesanal ou de laboratório, onde são usadas máquinas de baixa capacidade para lotes entre 200g e 3 kg. “Nesses casos, a eficiência energética é alta devido ao tamanho do lote”, ele diz. Além disso, tanto a condução quanto a convecção podem ser usadas como fontes de transmissão de calor, dependendo do perfil desejado de torra.

Oferta de torradores elétricos no mercado

Jorge menciona que em países como a Coreia do Sul, onde a energia elétrica é mais barata que o gás, os torradores são movidos a eletricidade. Além disso, há uma tendência crescente na Europa de projetos de novos equipamentos elétricos. O problema é que, segundo Sergio, “são máquinas que estão apenas em fase de protótipo e sua eficiência não é a ideal”.

Em relação à situação na América Latina, Sergio se esforça para promover a restauração e adaptação de máquinas, em vez de comprar novas. Esta é uma prática mais sustentável, de apoio diante da pouca disponibilidade recursos. 

Segundo Sergio, ainda é necessário estudar detalhadamente o projeto industrial dos equipamentos elétricos para otimizar seu consumo. Jorge concorda que os torradores elétricos não são tão populares por conta da falta de foco dos fabricantes no desenvolvimento da eficiência energética e na transmissão de calor. Em vez disso, houve melhorias no software para operá-las e torná-las mais intuitivas, o que beneficia os torrefadores inexperientes, mas é insuficiente para os torrefadores experientes.

Vantagens e desvantagens dos torradores elétricos

Jorge destaca que uma das principais vantagens dos torradores elétricos é a possibilidade de utilizar um fornecimento baseado em energias renováveis, especialmente para torradores artesanais ou de laboratório. Além disso, a manutenção é mais simples e acessível, e essas máquinas oferecem uma consistência térmica estável entre lotes.

Por outro lado, Sergio ressalta que a maioria dos torradores em cafeterias funciona a gás e não há muito controle ou certificação em termos de segurança, representando um alto risco. Ele argumenta que a utilização de torradores elétricos reduziria esse risco, as emissões de carbono e até mesmo o investimento inicial, pois não exigem tanto espaço ou autorizações para funcionar.

No entanto, é importante considerar que ainda não houve o desenvolvimento total na engenharia por trás dos torradores elétricos para torná-los uma opção viável em maior escala ou ao nível industrial. Nessas situações, o uso de gás ainda seria necessário para fornecer energia suficiente durante o processo de torra.

Além disso, o aumento dos serviços de fornecimento de energia elétrica, juntamente com os custos excessivos de adequação de instalações para atender a essa demanda, pode resultar em um aumento no custo de torrefação. E nesse sentido pode haver ainda o repasse desses aumentos ao consumidor final. “Na balança de custos pode ser bastante desfavorável, hoje, investir em torradores elétricos de café”, considera Sergio.

Quão funcionais são esses equipamentos?

Sergio observa que os torradores elétricos geralmente levam mais tempo para torrar uma carga em comparação com os movidos a gás. No entanto, ele destaca que, às vezes, o processo pode ser mais intuitivo e simples com os torradores elétricos.

Por outro lado, Jorge aponta que, ao fazer alterações nas variáveis do processo de torra, a reação tende a ser mais lenta nos torradores elétricos. Isso significa que há menos capacidade de resposta para replicar uma curva de torra. “Quando escolhemos uma máquina, normalmente nos baseamos no tempo de reação dela, em se tratando das variáveis ​​que queremos manipular.” 

Apesar disso, ele acredita que se houver conhecimento suficiente do funcionamento deste tipo de máquinas será possível fazer modificações antecipadamente e não enfrentar alterações tardias.

Esses equipamentos podem reduzir as emissões geradas pela torra?

Sergio ressalta a importância de considerar a eficiência e a origem da energia elétrica utilizada nos torradores elétricos para avaliar suas emissões de carbono. Se o consumo de energia for alto e não proveniente de fontes renováveis, é possível que o processo gere mais emissões do que uma máquina a gás convencional.

Jorge conta que na Colo Coffee Roasters começaram a medir as emissões de carbono e implementaram medidas para reduzi-las. Entre as de impacto está o uso de painéis solares para abastecimento do laboratório e do estoque, que dispõem de equipamentos com elevado consumo elétrico. A energia que esses painéis geram é suficiente para ter uma reserva de duas horas e meia de consumo com todos os equipamentos operando na capacidade máxima.

Além disso, descobriram que o processo de torra representou apenas 25% da estimativa de emissões que calcularam. Por isso, é necessário considerar o resto da operação se reduzir a pegada de carbono for realmente o foco do negócio.

Projeções sobre o desenvolvimento do mercado de equipamentos elétricos

Sergio prevê que o uso de energia elétrica no processo de torra das micro-torrefações se tornará mais eficiente nos próximos cinco anos, principalmente se houver inovações na tecnologia de indução. Ele garante que este é o sistema que consome menos energia e que consegue atingir temperaturas mais altas em menor tempo.

Ele destaca ainda a mudança para o hidrogênio como uma tecnologia de produção de calor em escala industrial na Europa. Essa transição aponta para uma busca por fontes de energia mais sustentáveis e eficientes.

Jorge enfatiza que é importante optar por energias renováveis e otimizar os recursos disponíveis, além de se adaptar às necessidades do torrefador no ambiente de trabalho para garantir sua integridade física. Ele ressalta a responsabilidade dos torrefadores como um elo determinante da indústria, não apenas em termos de qualidade do café, mas também em relação ao impacto ambiental de suas operações.

A ideia de implementar práticas comprometidas com a segurança e o cuidado ambiental é uma tendência que poderá se espalhar para a indústria torrefadora nos próximos anos, principalmente se nós, como consumidores, começarmos a exigi-la.

Neste contexto, os torradores elétricos poderão se tornar uma alternativa sustentável se houver progresso no seu desenvolvimento e operação para serem efetivamente eficientes sem exigir mais recursos do que os torradores a gás.

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Créditos da imagem: Colo Coffee Roasters.

PDG Brasil

Traduzido por Diego Oliveira

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