Fazendas de médio porte desempenham um papel importante no café especial
Para muitos consumidores e profissionais do setor, o café especial e o comércio direto estão irremediavelmente ligados. Construir relações de trabalho fortes e mutuamente benéficas entre produtores e torrefadores é frequentemente visto como uma pedra angular do estabelecimento de uma cadeia de suprimentos verdadeiramente sustentável, principalmente no caso das pequenas propriedades ou de fazendas de médio porte.
Essa associação entre café especial e comércio direto sugere uma narrativa onde torrefadores menores forjam parcerias estreitas e de longo prazo com pequenos produtores, trazendo melhores condições a esses produtores. De qualquer forma, os agricultores precisam de capital e recursos para manterem suas lavouras e, sendo assim, fazendas maiores têm mais capacidade de investir na melhoria da qualidade e dos rendimentos.
Ambos os exemplos são verdadeiros, com pequenas e grandes fazendas desempenhando um papel significativo na produção global de cafés especiais. Então, onde isso deixa os produtores de café de médio porte? Para saber mais, conversei com Ana Sofía Narvaez, construtora de relacionamentos do Caravela Coffee. Continue lendo para saber mais sobre o papel das fazendas de médio porte no café especial.
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Definindo uma fazenda de café de médio porte
Categorizar fazendas de café de diferentes tamanhos pode ser um desafio. Quando se trata de fazendas menores, é amplamente aceito que os produtores que cultivam áreas menores que cinco hectares podem ser definidos como pequenos agricultores. Este termo representa cerca de 95% das 12,5 milhões de famílias de cafeicultores do mundo, que contribuem para 67% da produção global.
Em relação a áreas de terra maiores que cinco hectares, no entanto, torna-se mais difícil identificar exatamente o tamanho das fazendas. Depende do país de origem, pois a escala de produção é um fator definidor importante. “Um produtor no Brasil com uma fazenda de 25 hectares é provavelmente considerado de pequena escala, enquanto na Nicarágua seria uma fazenda de médio porte”, explica Ana, gerente de relacionamento da Doselva – uma empresa de especiarias orgânicas que opera na América Central.
Outro indicador útil do tamanho da fazenda é se um produtor realiza suas próprias práticas de processamento pós-colheita no local, incluindo:
- processamento (tradicional ou experimental) e secagem;
- via úmida e despolpamento (remoção das sementes da polpa da cereja do café)
- beneficiamento (remoção do pergaminho do grão)
- descascamento (no caso dos cafés de processamento natural),, classificação e avaliação.
Alguns produtores de menor escala podem ter acesso a beneficadoras, ou, alternativamente, transportar suas cerejas para instalações maiores para serem processadas por terceiros. Fazendas de médio e grande porte, por sua vez, são mais propensas a operar ou ter acesso a instalações capazes de processar e beneficiar grandes volumes de café de uma só vez. No entanto, o contexto geográfico ainda é importante. Ana me diz que na América Central, por exemplo, muitos produtores processam seu próprio café, independentemente do tamanho da fazenda.

Onde as fazendas de médio porte se encaixam no café especial?
É crucial enfatizar que toda fazenda que cultiva café com 80 pontos ou mais tem um lugar na indústria de cafés especiais, independentemente do tamanho ou se processa seu próprio café. O café especial concentra-se principalmente nos pequenos agricultores – e com razão.
Conforme a TechnoServe, mais de 80% dos 12,5 milhões de famílias de pequenos produtores de café do mundo vivem abaixo da linha da pobreza. Desenvolver relacionamentos duradouros e resilientes e comprar mais café desses produtores é fundamental para promover melhorias na renda deles, assim como na qualidade do café que produzem. Por outro lado, fazendas maiores têm mais recursos e melhor acesso ao capital, o que as torna propensas a investir na melhoria da qualidade, experimentando técnicas de processamento novas e avançadas com mais sucesso com certos lotes.
“Na minha experiência, um produtor que possui uma estação de processamento e secagem bem estruturada tem mais chances de manter padrões de qualidade consistentes com maiores volumes de café vendidos como comercial ou especial – dependendo do mercado em que atua”, diz Ana.
O nível de qualidade do café depende, em última análise, de cada fazenda, de seus objetivos de negócios e do acesso a recursos e finanças. “Os métodos de processamento, as condições climáticas e o terreno, o acesso à tecnologia, a implementação das melhores práticas e as variedades disponíveis também precisam ser contabilizados”, ela acrescenta. Dado que tanto as fazendas de médio quanto as maiores, elas são mais propensas a controlar e gerenciar eficazmente diferentes variáveis, aumentando assim os volumes de café especial que produzem.
O mercado ultra-premium
Para os produtores que buscam entrar no mercado de café ultra-premium,a inovação contínua é essencial. Isso envolve aprimorar métodos de processamento ou plantar variedades raras. No entanto, isso envolve investimentos que nem todos os produtores podem se dar ao luxo de realizar. Comparados a outras empresas do setor, os produtores geralmente não têm muito capital, especialmente os de menor porte.
Fazendas de médio e grande porte, por outro lado, vendem mais café apenas com base em seu tamanho. Isso lhes proporciona mais recursos e lucros para reinvestir em seus negócios, oferecendo uma alavancagem significativa para vender café no mercado ultra-premium.
Para os produtores que procuram comercializar seus cafés para compradores mais sofisticados, essa pode ser uma abordagem eficaz. No entanto, fazendas de médio e grande porte inevitavelmente também cultivam cafés com 80 e poucos pontos, que muitas vezes compõem uma grande parte de seus volumes totais de produção.

Vantagens de comprar de fazendas de médio porte
Existem benefícios em comprar café de fazendas de qualquer tamanho, mas produtores de médio e grande porte naturalmente vendem volumes maiores – e potencialmente uma variedade maior de cafés, incluindo diferentes variedades e métodos de processamento. “Esses produtores também podem ter operações mais simplificadas e maior controle sobre os custos de produção. Eles também podem ter melhor acesso a financiamento e crédito para a produção de café, conseguindo maior poder de barganha ao vender seu café”, observa Ana
Fazendas de médio e grande porte podem, teoricamente, implementar mudanças em suas práticas agrícolas de maneira mais eficiente. A tarefa pode ser desafiadora para alguns pequenos agricultores que têm menos acesso ao capital, especialmente aqueles que não podem arriscar uma queda na qualidade ou nos rendimentos.
No entanto, gerenciar fazendas maiores e forças de trabalho maiores também é desafiador. Com maiores volumes de produção, os produtores precisam contratar mais funcionários – incluindo catadores sazonais – o que requer mais treinamento e investimento.

Independentemente do tamanho, cada fazenda de café experimentará seus próprios desafios e vantagens. Para apoiar melhor a indústria de cafés especiais, os torrefadores devem se esforçar para obter café de uma variedade de produtores.
Contudo, dada a atenção muitas vezes direcionada a pequenos produtores e grandes fazendas de café, é fácil esquecer o papel decisivo que os produtores de médio porte desempenham no cenário do café especial.
Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como podemos melhorar o acesso ao financiamento para pequenos cafeicultores.
Créditos das fotos: Caravela Coffee
Tradução: Daniela Melfi.
PDG Brasil
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