15 de março de 2024

O modelo brasileiro pode servir de referência para toda a região?

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Ao examinar a cena global da produção de café, a indiscutível posição de liderança ocupada pelo Brasil se destaca. O modelo brasileiro não apenas se reflete na liderança na produção, como também na exportação mundial de café, atingindo uma safra de 63 milhões de sacas em 2022.

Em comparação com outros países latino-americanos, a Colômbia se posiciona como o segundo maior produtor, alcançando aproximadamente 12,6 milhões de sacas no mesmo período, o que representa 20% da produção brasileira. O Vietnã, seu principal concorrente, produziu pouco mais de 30 milhões de sacas em 2022, ainda abaixo da metade da produção brasileira.

Apesar da importância dos números, eles oferecem pouca informação sobre as causas dessas discrepâncias e as características distintas dos modelos produtivos de cada país. O Brasil se destaca pela mecanização e volume de produção, enquanto outros países priorizam a cafeicultura artesanal e enfatizam a qualidade.

Para uma análise mais aprofundada das diferenças entre o modelo brasileiro e o de outros países latino-americanos, conversei com Willem Araujo, engenheiro-agrônomo e extensionista da EMATER no Brasil, e José Luis Atehortúa, pesquisador cafeeiro com quase 20 anos de experiência no Centro Nacional de Pesquisa Cafeeira da Colômbia.

Leia também: Por que a classificação das cerejas de café é fundamental para aprimorar a qualidade do café?

O desenvolvimento do modelo brasileiro de cafeicultura

Apesar de compartilharem região, Brasil e outros países latino-americanos diferem em modelos e sistemas de produção, influenciados por variáveis geográficas, climáticas, sociais e econômicas. O Brasil também se destaca na produção de Robusta, que representa cerca de 24% da produção local, enquanto a Colômbia e demais países da região têm adesão limitada a essa variedade.Outra diferença crucial é o perfil dos cafeicultores, com o Brasil tendo dois terços de pequenos produtores, enquanto nos países andinos e centro-americanos eles representam uma proporção ainda maior, como explica Willem..

Apesar disso, o modelo produtivo dos pequenos cafeicultores é um ponto em comum a todos os países sul-americanos. São fazendas de pequena extensão, baseadas no trabalho familiar transmitido de geração em geração, com práticas agrícolas similares. Até a década de 70, o Brasil era predominantemente agrícola e rural, mas fenômenos como o êxodo rural e o desenvolvimento urbano reduziram drasticamente a mão de obra disponível no campo.

Esse cenário, aliado à industrialização intensiva, à introdução do cultivo de Robusta e ao crescimento das grandes plantações, impulsionou o desenvolvimento, inovação e mecanização da cafeicultura brasileira, resultando em aumento significativo nos volumes de produção. Essa mecanização também alcançou os pequenos produtores, moldando o modelo cafeeiro brasileiro em direção à produção em larga escala, diferentemente do que houve nos outros países cafeeiros da região, conforme destacado por José Luis.

Mecanização agrícola e grandes volumes 

Desde os anos 90, a cafeicultura brasileira, em resposta a desafios como mão de obra e variáveis geográficas, focou na produção de grandes volumes. A aquisição da União pela Sara Lee e políticas mais rígidas aceleraram a ocupação desse segmento por grandes produtores.

Ao contrário de outros países cafeeiros, o Brasil não se limitou à produção de grãos. A comercialização do café torrado e moído internacionalizou-se, e o mercado interno cresceu. Inovações, como processamento a vácuo, sistemas de irrigação tecnificada e mecanização da colheita, consolidaram a nova dinâmica, destaca Willem.

José Luis aponta que fatores climáticos, mecanização agrícola, introdução do cultivo de Robusta e aumento da densidade de cultivo contribuíram para que apenas uma colheita anual ocorra em quase todas as áreas produtoras do Brasil, impulsionando rentabilidade e eficiência. A escalada na produção, aliada à escassez de mão de obra, resultou na terceirização de processos, algo único em comparação aos demais modelos cafeeiros da região. No Brasil, houve a centralização de capital e produção, deixando pouco espaço para pequenas indústrias.

Ao contrário do Brasil, a maioria dos países latino-americanos não experimentou grandes avanços tecnológicos em seus modelos cafeeiros. Cafeicultores continuam com práticas tradicionais, como a colheita e seleção manual do café, enfrentando altos índices de pobreza e pouco acesso a recursos e infraestrutura.

É possível a replicação do modelo brasileiro no resto da América Latina? 

A possibilidade de replicar o modelo de produção brasileiro na América Latina é questionada por Willem e José Luís, que apontam diversas condições dificultadoras nas regiões vizinhas. Quase todos os outros países latinos focam em qualidade e sabores distintos, como os “cafés suaves lavados” colombianos. Esses modelos atendem a mercados específicos, não competindo diretamente com o gigante sul-americano.

Outro obstáculo para a implementação do modelo brasileiro é a geografia predominante nas zonas cafeicultoras. O Arábica, que demanda altitudes elevadas, desenvolveu-se nas montanhas andinas, com vias de acesso desafiadoras e infraestrutura limitada. Sendo assim, há grandes dificuldades para investir em sistemas mecanizados e maior densidade de plantio. No Brasil, boa parte da produção concentra-se em áreas planas, propícias ao modelo brasileiro, observa Willem.

Ao analisar os modelos de produção em diferentes regiões, percebe-se que os desafios não são exclusivos, mas globais. A escassez de mão de obra rural é uma preocupação tanto para a cafeicultura brasileira quanto para a colombiana, resultando em envelhecimento dos produtores e pouca renovação geracional.

No Brasil, a solução foi a mecanização, não facilmente aplicável em regiões como a Colômbia, segundo José Luis. Mesmo com essa mecanização, o componente climático surge como desafio principal para a cafeicultura brasileira, destaca Willem. O modelo de grandes plantações e processos tecnificados não escapa a fenômenos como o de El Niño e a escassez de recursos hídricos. Além disso, a maioria da produção brasielira se concentrou em zonas mais quentes e quase todos os sistemas são a céu aberto, diferente de muitas plantações andinas que são sombreadas.

Modelos, mercados e competências diferentes 

O modelo de produção de café na América Latina, focado na variedade Arábica, destaca-se por cultivar variedades exclusivas, como Geisha no Panamá, Pacas em El Salvador ou Caturra Chiroso na Colômbia, impulsionando o mercado de cafés especiais. Essa ênfase na qualidade afasta essas regiões do modelo brasileiro, orientado predominantemente pelo volume.

Embora compartilhem algumas características, os modelos de produção de café no Brasil e nos demais países latino-americanos têm objetivos e mercados distintos. Mesmo que alguns argumentem que outros países possuem vantagens na produção de variedades especiais, as diferenças nos modelos e mercados resultam em segmentos separados.

Os mercados internos também contrastam. Enquanto países como Peru e Equador têm níveis ainda incipientes de consumo de café, o mercado interno brasileiro é vasto. Em 2022, o consumo de café solúvel no Brasil atingiu aproximadamente um milhão de sacas, representando cerca de 25% da produção total de outros países da região, como México, Guatemala e Peru.

O modelo brasileiro de cafeicultura desperta admiração por sua produtividade e mecanização. No entanto, é crucial destacar que replicá-lo em outros países da região é uma tarefa desafiadora. As divergências nos territórios e nos nichos de mercado de cada país impossibilita a aplicação de um sistema com a mesma eficácia ou resultados.

Nesse contexto, a abordagem mais recomendável é tomar as boas práticas de cada sistema como exemplo. E então avaliar sua aplicabilidade de acordo com as necessidades e possibilidades específicas de diferentes origens.

Gostou deste artigo? Então leia sobre a cena do café Robusta, especialidade no Brasil. 

Créditos das imagens: José Atehortúa, Willem Araujo. 

PDG Espanhol

Traduzido por Ana Mercedes Fernández

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