Fermentação lática: uma alternativa de beneficiamento para os produtores?
O processo microbiológico da fermentação lática vem despertando o interesse de produtores e demais atores do setor de cafés especiais, que buscam agregar cada vez mais valor aos grãos. Embora métodos experimentais como esse geralmente intensifiquem sabores e aromas, é crucial esclarecer que diversos outros fatores influenciam a qualidade final do café na xícara
Para compreender o impacto da fermentação lática nos diferentes tipos de café, consultei especialistas como Felipe Sardi, da La Palma y el Tucán, Julián Cucuñame, diretor científico da CuBa BIOTEC, e Hernando Tapasco, instrutor Q Processing. Continue lendo para saber o que têm a dizer.
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O QUE É A FERMENTAÇÃO DO CAFÉ?
A fermentação do café transforma açúcares, lipídios, proteínas e ácidos em álcoois, ésteres e cetonas. Enzimas produzidas por leveduras e bactérias na mucilagem conduzem esse processo, alterando características como odor, cor, pH e composição dos grãos de café.
Felipe Sardi destaca que durante a fermentação, três produtos se formam: etanol, dióxido de carbono e ácidos orgânicos (málico, lático, cítrico, fosfórico e butírico). Julián Cucuñame por sua vez explica que historicamente se usam três métodos fermentativos ou oxidativos no processamento de alimentos, sendo eles:
- Fermentação lática homofermentativa, na qual as bactérias do ácido lático transformam alguns açúcares em ácido lático.
- Fermentação lática heterofermentativa, na qual as bactérias do ácido lático e algumas enterobactérias transformam os açúcares principalmente em ácido lático, etanol e CO₂.
- Fermentação alcoólica, na qual leveduras e bactérias transformam os açúcares em etanol e CO₂.
- Oxidação acética, na qual as bactérias do ácido acético transformam o álcool em ácido acético.
De acordo com sua experiência em pesquisa e desenvolvimento, esses processos, juntos ou separados, dependendo da qualidade da matéria-prima, podem dar grande complexidade às características organolépticas do café. Além disso, é preciso elucidar que essas não são as únicas fermentações que podem ocorrer no processamento ou fermentação não controlada do café. Há outras, como: propiônica, butírica, fórmica, ácida mista e metânica.
As fermentações que, em geral, não nos interessam no que diz respeito ao café porque são responsáveis por alguns dos problemas mais conhecidos. O que gera a fermentação e a velocidade com que ela se desenvolve dependem de fatores que influenciam o metabolismo dos microrganismos: temperatura externa, método de fermentação, tempo, qualidade do café, composição e higiene do substrato, frutos e condições do equipamento.

FERMENTAÇÃO LÁTICA
Hernando Tapasco destaca que microrganismos (bactérias láticas e fungos) geram metabólitos como ácido lático, mas esclarece que isso não se relaciona diretamente com notas de iogurte no café. “Conversando um pouco com outros especialistas, eles dizem que o ácido lático desenvolve notas caramelizadas. Ou seja, não é ele que vai se converter em uma nota de amora ou iogurte na infusão”, diz.
Ao buscar agregar valor à fermentação lática do café, os especialistas sugerem que criar um protocolo completo para promover a ação de bactérias láticas pode ser uma abordagem complexa. Esse protocolo inclui o uso de biorreatores, controle do ambiente de fermentação e evidência de processos específicos. Contudo, essa prática é considerada impraticável e pouco lucrativa para pequenos produtores.
Análises assim requerem minuciosas pesquisas laboratoriais, o que implica altos custos e resultados enriquecedores para a ciência, entretanto não oferecem alternativas de geração de valor para os pequenos produtores. É preciso considerar que diferentes tipos de fermentação ocorrem no processo de processamento do café e que esse processo não é o único ou o mais importante para o desenvolvimento de cafés com qualidades que permitam o acesso a preços diferenciados.
Existem outros fatores a serem considerados, como o terroir, a genética da planta, o processamento e outras atividades pós-colheita, como secagem, armazenamento e torra. Todos esses aspectos juntos, se desenvolvidos com base em boas práticas, ajudarão o café a ter mais qualidade e a expressar todos os seus atributos. Dessa forma, os produtores podem entender com qual protocolo seu café pode gerar mais valor.

FATORES QUE AFETAM A FERMENTAÇÃO DO CAFÉ
O terroir, ou seja, as condições ambientais em que a safra de café é cultivada (temperatura e sua variação entre o dia e a noite, incidência solar, luminosidade, índices pluviométricos, entre outros), é um dos fatores vitais para os processos de beneficiamento.
A matéria-prima é outro aspecto a ser levado em consideração. De acordo com Felipe, quanto maior a concentração de açúcares no processo de fermentação, mais complexos serão os ácidos, e isso determinará o perfil sensorial da xícara, uma condição que está relacionada ao terroir.
“Os chamados cafés de altitude, que se referem à variação entre a temperatura da noite e do dia que gera estresse na planta e, quando estressada, armazenam mais açúcar na forma de mucilagem. Nesse momento é possível fazer uma associação e entender: não é de se admirar que os cafés de altitude possam ter mais acidez, porque eles têm a matéria-prima necessária, ou seja, mais açúcar, para gerar um maior teor de acidificação ou ácidos orgânicos.”
Nesse mesmo sentido, destacam-se os processos de fermentação controlada. Isso implica conhecer os microrganismos específicos de cada fazenda e que afetam os processos de fermentação do café. Esses microrganismos são isolados para que possam se desenvolver em condições controladas de e depois inoculados para realizar fermentação. Seus resultados são constantemente avaliados com o objetivo de desenvolver protocolos na produção de cafés que apresentem determinados sabores e aromas e que possam ser altamente valorizados pelo mercado de produtos especiais.

VANTAGENS DA FERMENTAÇÃO LÁTICA
De acordo com a experiência de Julián, a fermentação lática não é vantajosa para todas as variedades de café em diferentes regiões geográficas. O processamento do café depende de múltiplas variáveis e cada família produtora deve se concentrar em conhecer e compreender as condições de cultivo em lavoura.
Depois disso, eles podem fazer um trabalho minucioso de pós-colheita, envolvendo processos de fermentação controlada para identificar alternativas que permitam que o café tenha mais qualidade. Seja usando uma única fermentação, como a fermentação lática, ou uma combinação controlada de diferentes tipos de fermentação.
Hernando também cita que a fermentação lática é mais um processo que se pode controlar e que tem chances de gerar cafés singulares, mas não depende exclusivamente dela. Uma coisa é fazer a fermentação lática e outra é que esse protocolo ajude a produzir um café diferenciado.
“A fermentação é uma operação unitária em que, se a entendermos e utilizarmos com diferentes alternativas de fermentação, poderemos produzir diferentes perfis sensoriais. Com práticas de fermentação muito básicas, que não são caras, é possível criar perfis sensoriais complexos. Essa é uma boa notícia para os produtores”.

OS DESAFIOS DOS PROCESSOS DE FERMENTAÇÃO
Desenvolver processos de fermentação envolve dois grandes desafios para os pequenos produtores:
- A apreensão por parte dos pequenos produtores exige a implementação de metodologias adequadas para ensinar ou transferir conhecimento. Isso levando em consideração que grande parte dos produtores são mais velhos, para os quais os processos andragógicos fazem mais sentido.
- Os custos que podem se relacionar ao desenvolvimento desses processos, que envolvem o controle da fermentação. E que além disso variam de acordo com o escopo e o rigor do processo que os produtores desejam implantar.
Nesse caso, estamos nos referindo aos processos altamente complexos que envolvem biorreatores e inoculação de microrganismos em contraste com outros processos mais artesanais que exigem menos recursos e que também permitem o controle de variáveis. De qualquer forma, deve-se considerar os custos adicionais que se refiram à coleta e seleção de matéria-prima e, em alguns casos, à inoculação de microrganismos

A fermentação lática é uma alternativa valiosa para o beneficiamento do café, contribuindo para a complexidade sensorial.
No entanto, é essencial reconhecer que a qualidade do café depende de uma combinação de fatores, incluindo terroir, genética da planta e outros processos pós-colheita. O conhecimento e a aplicação de boas práticas nestes aspectos são fundamentais para maximizar a qualidade e valor do café.
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Créditos das fotos: La Palma y el Tucán, CuBa BIOTEC, Programa de Alianza Comercial de USAID.
PDG espanhol
Traduzido por Karen Maria
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