19 de fevereiro de 2024

Produção orgânica: a verdadeira diferenciação na qualidade do café?

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A agricultura tradicional e em grande escala apresenta sintomas de esgotamento devido às questões climáticas e suas repercussões na saúde humana e em vários ecossistemas. Dada a crescente preocupação global com o aquecimento global e a utilização intensiva da aditivos e agroquímicos nos alimentos, alguns países começam a considerar a possibilidade de recorrer a práticas mais responsáveis como a produção orgânica.

Neste contexto, muitos se perguntam se a transição para esse modelo de agricultura poderia levar os produtores de café a alcançar qualidade diferencial em suas lavouras sem renunciar à rentabilidade da safra. Para entender melhor esta alternativa conversei com três especialistas: Diego Carlier da Colômbia, Mauricio Leon do Equador e Sonia Vasquez de Honduras. Continue lendo e descubra suas opiniões.

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Estufa para secagem de café em meio À lavoura

ALÉM DOS ORGÂNICOS: SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE BAIXO IMPACTO

Uma das práticas de produção agropecuária mais sustentáveis é a permacultura, desenvolvida no final da década de 1970 por David Holmgren e Bill Mollison. Atualmente ela está difundida como técnica ambientalmente responsável e consolidada como uma tendência que fornece soluções para problemas complexos para a produção de alimentos.

Desde as suas primeiras definições, a permacultura tem sido regida por três princípios básicos: o cuidado do planeta, o cuidado das pessoas e a distribuição justa dos lucros ou lucros provenientes da comercialização de produtos. Diego Carlier Prada é um cafeicultor de quarta geração no departamento de Santander, Colômbia. Ele conhece bem os sistemas de produção agrícola e define a permacultura como “o conceito mais importante que deve ser aplicado a toda a produção agrícola em todo o mundo”.

Segundo ele, a permacultura é a forma mais inteligente de enfrentar importantes desafios de sobrevivência como as alterações climáticas como civilização, transformando os nossos recursos de forma sustentável e amiga do ambiente, sendo coletivamente eficientes e harmoniosos com o ambiente.

Sem questionar as suas vantagens como sistema de produção, no caso do café não consegue ter impacto suficiente para alavancar uma transformação do mercado, mantendo o volume atual e garantindo o sucesso da transição. Outro desafio dessa técnica na produção de café é ter os componentes necessários para manter a qualidade do perfil da xícara que os clientes internacionais exigem hoje.

Por sua vez, existem outros sistemas de produção que procuram respeitar os ciclos de vida dos componentes da terra e aproveitá-los para fertilizá-la sem recorrer a substâncias químicas que aceleram os processos. Entre as mais praticadas estão a agricultura sintrópica e regenerativa, que se concentra na compreensão dos processos naturais que os ecossistemas ativam para equilibrar a vida nas áreas de cultivo.

A soberania alimentar

A espinha dorsal da permacultura e de outros sistemas semelhantes é a renúncia ao uso de agentes químicos na preparação e desenvolvimento de solos para cultivo. A estes valores devemos acrescentar um fator crucial para o seu sucesso nas áreas agrícolas tradicionais familiares ou de pequena escala: a soberania alimentar.

A permacultura possibilita que os produtores cultivem gradativamente outros alimentos que lhes permitam gerar opções de negócios e, ao mesmo tempo, abastecer-se de produtos suficientes para alimentar sua família e até mesmo sua comunidade. Esse sistema produtivo busca se proteger dos impactos da dinâmica dos preços internacionais do café. Geralmente, uma queda acentuada nos preços deixa uma família de produtores sem lucros ou rendimentos e até viola o seu direito humano a uma alimentação adequada e decente.

Frutas consorciadas em lavoura de café -- produção orgânica

O CONCEITO DA PRODUÇÃO ORGÂNICA

No livro Guia para a Cafeicultura Ecológica, os autores Beatriz Fischersworring e Robert Robkamp definem este modelo como “uma forma de produção agropecuária intensiva e equilibrada que trata de buscar uma concordância entre os sistemas tradicionais e as práticas de manejo de gestão da agricultura orgânica moderna. Nesse sentido, a cafeicultura orgânica pensa na saúde humana e no impacto que o café pode causar sobre ela.

Kenlly Mauricio Leon é cafeicultor de Galápagos, no Equador, e assim define a produção orgânica: “é cuidar da saúde da comunidade através dos produtos agrícolas, oferecendo como resultado final não só um produto de qualidade, mas também saudável”.  

“A implementação de práticas orgânicas e de permacultura na produção de café é uma necessidade urgente. Essa dinâmica transcende diferentes dimensões e permite o desenvolvimento de sistemas produtivos sustentáveis, benéficos ao meio ambiente, à saúde do consumidor, à organização empresarial e à sociedade em geral”, afirma Diego.

Vista de um pátio de secagem de cafés

A TRANSIÇÃO PARA UMA CAFEICULTURA ORGÂNICA

A qualidade de um produto não pode ser medida apenas pelos atributos excepcionais que possui para conquistar um mercado específico. No que diz respeito à cafeicultura, as fontes consultadas concordam em dar especial valor ao impacto social da produção agroecológica.

Fazer a transição para uma opção biológica passa por pensar em vários fatores como o bem-estar da família, a saúde da terra e, claro, a rentabilidade. Kenlly Mauricio comenta que “a dificuldade é encontrar consumidores que estejam dispostos a pagar por um produto verdadeiramente de qualidade, já que a sociedade atual não considera muito os produtos químicos que consome nos produtos agrícolas”.

Tal como acontece com outras formas de cultivo, o café orgânico não escapa às conhecidas desvantagens que a cadeia de valor enfrenta. No seu caso, Diego resume assim: “são várias as dificuldades que os produtores podem encontrar durante esta transição. A ameaça mais relevante é o baixo preço pago pela indústria aos cafeicultores, que não compensa realmente o esforço para produzir um café com essas características.”

Esse equilíbrio entre produção saudável e preços justos que proporcionem sustentabilidade às famílias produtoras é o grande desafio. Os pequenos produtores de café têm a oportunidade de implementar a agricultura orgânica com mais vigor. Ao não terem a obrigação de sustentar uma monocultura, podem diversificar suas áreas plantadas com produtos compatíveis com o cafeeiro e suas necessidades alimentares.

Como pode ser mais fácil?

Para Sonia Vázquez, produtora hondurenha, é fundamental que os produtores tenham conhecimento sobre:

  •  Diferentes propostas sobre como fazer agricultura orgânica nas fazendas
  • Regulamentos e normas
  • Certificação
  • Aplicação em unidades produtivas
  • Registros de atividades

“Os produtores organizados conseguem ser mais eficientes e rentáveis nos processos de transição e certificação orgânica de suas fazendas. E com isso buscar mercados que comprem seu café de forma coletiva.” Além disso, ela afirma que num mercado mutável e que exige cada vez mais certificações diferentes, “os produtos biológicos têm uma vida útil mais longa”. Algo que representa uma vantagem competitiva para produtores e comerciantes.  

O cultivo do café orgânico está se tornando cada vez mais importante nos países produtores. Em alguns casos, a tal ponto que as formas tradicionais não encontram mais lugar e geralmente é a opção mais responsável de produção. Sónia considera que “o principal recurso dos produtores é o solo. Se a sua saúde e nutrição forem recuperadas, as famílias produtoras podem diversificar as suas culturas e rendimentos. A agricultura biológica e a permacultura permitem a gestão sustentável do solo e da água. E esses recursos estão intimamente ligados aos direitos humanos, como a alimentação, o acesso à água e outros.”

A verdadeira diferenciação de qualidade?

Em um mercado que exige cada vez mais diferenciação, rastreabilidade e perfis de sabores exóticos, o conceito de qualidade começa a ser mais complexo de se definir. Embora a pontuação na xícara tenha sido, e provavelmente continuará a ser, um fator determinante, cada vez mais outras considerações entram em jogo.

O impacto social, ambiental e econômico associado à produção vem ganhando força não só entre os consumidores, mas também entre os mercados e os governos. Um exemplo claro é a regulamentação sobre produtores que contribuem para o desmatamento e por isso são impedidos de exportarem para a União Europeia. Tendo em conta que em países como o Peru a percentagem de exportações para UE beira 50% da sua produção, o impacto disso é enorme.

Qualidade vai além de atributos sensoriais

Nesse contexto, começa a surgir uma ressignificação da qualidade do café. E ela está associada a aspectos que transcendem o sabor e que apelam a fatores mais complexos.

Surge, então, uma oportunidade para os produtores orgânicos se destacarem num marcado por más práticas. E com isso oferecer um produto que priorize sua saúde e bem-estar, ao mesmo tempo que cuida dos consumidores e do planeta.

Bananas plantadas em consórcio com a lavoura de café em produção orgânica

Estima-se que os pequenos produtores forneçam cerca de 80% dos alimentos que consumimos em todo o mundo. Assim, a agricultura orgânica encontra terreno fértil para alimentar a humanidade de forma saudável, combater a fome e tentar frear o aquecimento global.

Tudo isso, sem abrir mão de uma condição de vida digna, com rentabilidade consistente e justa para os produtores de café. Ainda que os benefícios do café de produção orgânica sejam grandes, ainda existem desafios. E certamente, um dos maiores entre eles é convencer mais torradores e provadores com perfis de alta qualidade.

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Créditos das imagens: Diego Carlier, Kenlly León, Rober Vivas.

PDG Español

Traduzido por Anne Pomagerski

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