1 de abril de 2024

Plantio consorciado: um guia para sua implementação

Compartilhar:

Diante dos crescentes desafios enfrentados pelas fazendas de café, como mudanças climáticas, aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra, os cafeicultores estão buscando soluções inovadoras. Uma dessas estratégias é a adoção do plantio consorciado, também conhecido como plantio consorciado, como parte das práticas da agricultura orgânica. 

O objetivo do plantio consorciado é promover a diversificação e a sustentabilidade econômica, social e ambiental das plantações de café. Conversei com Scarlette Zerón, gerente de projetos da associação Proexo, Óscar Omar Alonzo, da Finca Cual Bicicleta, e José Javier Muñoz, especialista em café, para entender melhor o plantio consorciado e como implementá-lo. Continue lendo para descobrir o que eles compartilharam.

Leia também: Diversificação para produtores: integrar outras culturas ou agregar valor?

O que é plantio consorciado? 

O plantio consorciado é uma prática agrícola sustentável que envolve o cultivo simultâneo de diferentes culturas num mesmo espaço, trazendo diversificação a esquemas de monocultura. Essa abordagem promove a regeneração do solo, contribuindo assim para a preservação do meio ambiente.

Scarlette destaca que o desenvolvimento do plantio consorciado em regiões cafeeiras pode ser parte de práticas orgânicas inteligentes em termos climáticos. Ela ressalta que os impactos positivos dessa prática preservam não só o ambiente, mas também a renda das famílias produtoras.

Na fazenda de Óscar, localizada na região hondurenha de Marcala, o plantio consorciado de milho, feijão, mandioca, bananas e pasto ao lado das lavouras de café vem dando resultados positivos. Ele relata que isso permite um melhor aproveitamento da mão de obra na fazenda, tanto nas plantações de café quanto nas demais culturas. Isso não apenas atende às necessidades alimentares dos colaboradores e de suas famílias, mas também gera renda extra.

Foco na produtividade e na rentabilidade

José Javier destaca que, visando a sustentabilidade financeira, todas as fazendas estão constantemente buscando aumentar a produtividade agrícola. No contexto do café, isso se torna desafiador devido às mudanças climáticas e aos preços voláteis do grão. É nesse ponto que o plantio consorciado se destaca como uma opção para enfrentar esses desafios.

Essa estratégia permite uma utilização mais eficiente do espaço na fazenda, possibilitando o cultivo de produtos adicionais que ajudam a cobrir os custos por meio de sua comercialização. Além disso, ao gerenciar outros cultivos junto ao cafezal, aproveita-se melhor a mão de obra contratada, tornando a gestão econômica mais eficiente, conforme afirma Scarlette.

Óscar ressalta que a produção adicional permite oferecer alimentos saudáveis aos colaboradores e mantê-los motivados mediante compensações financeiras. Ao compartilhar os rendimentos, evita-se a migração da mão de obra para áreas urbanas ou para o exterior.

Além disso, Scarlette destaca que o plantio consorciado contribui para garantir a segurança alimentar nas fazendas de café, reduzindo o consumo de alimentos processados. Ela afirma que uma melhor nutrição sempre é benéfica, melhorando a saúde dos cafeicultores e suas famílias e assim aumentando sua produtividade e qualidade de vida.

Tanto José Javier quanto Óscar recomendam a diversificação da produção da fazenda para aumentar a renda por meio de práticas orgânicas, que incluem não apenas o plantio consorciado, mas também o desenvolvimento de colmeias para produção de mel, piscicultura, criação de minhocas, viveiros e até iniciativas turísticas.

Essas iniciativas não apenas proporcionam benefícios sociais significativos para as famílias dos cafeicultores, como destacado por Scarlette, mas também podem ser uma fonte adicional de renda administrada por mulheres e filhos jovens, estimulando a inovação e o empreendedorismo. Além disso, muitos dos produtos gerados podem ser comercializados localmente, promovendo uma mentalidade empreendedora na comunidade.

Primeiros passos: análise do ambiente e dos mercados 

Antes de adotar o plantio consorciado, uma análise meticulosa do ambiente da fazenda é indispensável, considerando fatores como altitude, temperatura e qualidade do solo. José Javier enfatiza que isso é fundamental para determinar quais culturas se adequam melhor às condições específicas da região. Além disso, é essencial avaliar a existência de um mercado para esses produtos, garantindo opções eficazes de comercialização.

Óscar destaca a importância de compreender o manejo e as necessidades das culturas que ali se desenvolverão, tanto em termos de mão de obra quanto de insumos. Isso permite estabelecer um plano de manejo viável a curto e médio prazo, alinhado com o cultivo do café, sem incorrer em custos adicionais.

Scarlette concorda e enfatiza que os produtores devem ser extremamente cuidadosos ao incorporar novas culturas junto ao café. “Uma análise de mercado básica é essencial para entender a demanda por essas culturas e determinar a rentabilidade”, ela diz.

Ela destaca que, como o plantio consorciado é uma estratégia de agricultura sustentável, é vital revisar o plano de manejo dessas culturas para garantir conformidade com os requisitos dos selos de certificação orgânica. Isso é essencial para não afetar a produção de café ou colocá-la em risco.

Quais cultivos são ideais para intercalar com o café?

Segundo especialistas, os cultivos ideais para o plantio consorciado com café são aqueles de ciclo curto, como milho, feijão, mandioca e banana. Essas culturas são benéficas para o solo, auxiliando na fixação de nutrientes como nitrogênio e potássio naturalmente. Além dessas, José Javier menciona que plantas como macadâmia, cardamomo e ervilha também são boas opções para o plantio consorciado.

Óscar sugere a aplicação de matéria orgânica, como esterco ou composto, no solo antes do plantio consorciado, como preparação. Ele enfatiza a importância de iniciar com o plantio do café e, posteriormente, prosseguir com os outros produtos.

É fundamental considerar que o plantio consorciado é mais benéfico na fase inicial do cultivo do café, ou seja, entre 0 até aproximadamente 24 meses, devido à menor competição por recursos entre as plantas. Conforme destaca Scarlette, “essa fase inicial permite aproveitar o crescimento e desenvolvimento das plantas de café, sem gerar uma competição significativa de recursos com os cultivos paralelos em termos de espaço, luz, água e nutrientes”.

Plano de Manejo e Benefícios das Culturas Intercalares

José Javier enfatiza que ter uma cultura consorciada com o café sempre será um exercício de muita ordem e disciplina. “Cada produto plantado requer um tratamento específico, portanto, devemos projetar e aplicar um plano que alinhe o manejo de cada um deles com o café, para que nenhum seja negligenciado, otimizando o uso da mão de obra e insumos”.

Cultivar outros produtos permite manter a rentabilidade nos meses em que não há produção de café, “evitando problemas de liquidez que podem afetar as finanças da fazenda”, destaca. Entre os benefícios que as culturas consorciadas trazem para as fazendas, estão:

  • os solos têm uma maior cobertura superficial, protegendo sua qualidade ao reduzir a degradação causada pela erosão;
  • a estabilidade dos solos aumenta ao melhorar sua estrutura e porosidade, otimizando a infiltração e a capacidade de armazenamento de água;
  • a matéria orgânica gerada atua como cobertura morta e reduz a evaporação da água, conservando a umidade do solo;
  • a diversidade de insetos benéficos, como predadores de pragas e agentes polinizadores, é promovida pela matéria orgânica rica em microorganismos;
  • as culturas consorciadas ajudam a mitigar as mudanças climáticas, capturando carbono, reduzindo a erosão, conservando a umidade do solo e regulando a sombra nas plantações de café.

Impacto na xícara

Os benefícios do plantio consorciado se refletem num terroir aprimorado e na produção de cafés diferenciados, de alta qualidade na xícara, de acordo com José Javier. Como resultado, os produtores podem conseguir um preço melhor por seus grãos. Óscar, que vem aplicando essa e outras estratégias há mais de 20 anos, é exemplo disso.

Na década de 1990, ele começou a transformar seu cultivo, aplicando a agricultura sustentável em um hectare. Hoje, ele possui 25 Ha de café nos quais aplica o plantio consorciado, com resultados invejáveis. “Anualmente, produzo aproximadamente 82,4T de microlotes com avaliação próxima aos 90 pontos na escala da SCA”.

“Considero que a agricultura orgânica, em geral, e os cultivos consorciados, em particular, são benéficos econômica, social e ambientalmente não apenas para os produtores, mas também para os torrefadores internacionais que adquirem nossos grãos. Eles podem oferecer aos seus clientes cafés diferenciados e de alta qualidade, cultivados pensando no bem-estar do planeta e a saúde dos consumidores em mente”, afirma Óscar.

Embora o plantio consorciado seja mais comum em fazendas pequenas e médias que adotam práticas orgânicas, também pode ser aplicado em modelos de produção em maior escala. E assim resultar em maior rendimento e produtividade.

O compromisso com práticas orgânicas e o plantio consorciado é um esforço grande. Muitos cafeicultores se comprometem não apenas para lidar com os custos de produção, mas também para garantir a sustentabilidade da produção. Isso envolve preocupações com o bem-estar dos colaboradores das fazendas e a preservação do solo e do ecossistema.

Gostou deste artigo? Então leia sobre se há diferença entre um produtor de café e um cafeicultor.

Créditos das fotos: Óscar Omar Alonzo, Scarlette Zerón, José Javier Muñoz.

PDG Brasil

Tradução: Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter semanal aqui!

Compartilhar: