Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura
A água desempenha um papel fundamental na produção de café, e os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes nas regiões produtoras. Desde chuvas irregulares até secas prolongadas, os cafeicultores enfrentam inúmeros desafios. Sem o suporte de sistemas de irrigação eficazes, eles ficam vulneráveis às condições climáticas imprevisíveis, o que pode impactar negativamente a qualidade e o volume da safra.
Conversei com um produtor e um engenheiro agrônomo para entender melhor como os sistemas de irrigação são aplicados na cafeicultura, as estratégias para lidar com os desafios do clima e os modelos de rega mais comuns. Continue lendo para saber mais.
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O que é um sistema de irrigação?
Muitas vezes usamos a água irracionalmente, mesmo que ela seja um recurso essencial para a atividade agrícola. Isso pode causar prejuízo e ocasionar falta de recursos hídricos. A agricultura adotou os sistemas de irrigação como uma forma de otimizar o uso da água.
Essas instalações técnicas visam fornecer água o suficiente para os cultivos. Geralmente, essas estruturas fornecem os serviços de captação (águas superficiais e subterrâneas), condução e, em alguns casos, armazenamento e distribuição nas fazendas.
Pedro Morales Mijangos, engenheiro agrônomo e produtor de café na Guatemala, explica que esses sistemas fornecem o volume de água que as plantas exigem para evitar o estresse hídrico e obter um maior rendimento e qualidade no grão.
Aspersão, gotejamento, inundação ou canhão de água estão entre os mais comuns, diz Pedro, embora haja várias outras possibilidades em termos de sistema. É comum encontrar locais que não possuam infraestrutura de instalação e manejo correto, então é importante que o produtor escolha o método que funcione melhor para ele.
Quais as vantagens dos sistemas de irrigação?
Os sistemas de irrigação não apenas garantem a disponibilidade de água durante as baixas temporadas e secas, mas também têm uma série de outros benefícios que afetam os aspectos produtivo, econômico, ambiental e social da cafeicultura.
De acordo com Pedro, do ponto de vista agronômico, os sistemas de irrigação permitem suprir a deficiência de água em diferentes etapas fenológicas das plantações de café, como floração, crescimento vegetativo, desenvolvimento do fruto e maturação.
Isso resulta em uma floração mais homogênea e pode reduzir a necessidade de múltiplos cortes durante o ciclo de cultivo. “Proporcionamos a água com o sistema de irrigação para garantir uma floração muito mais homogênea e, com ela, fazer apenas um ou dois cortes e que não tenhamos tantas florações num ciclo”, ele explica.
Além disso, a fertirrigação, que consiste em dissolver fertilizantes na água de irrigação, permite uma distribuição mais eficiente dos nutrientes para as plantas, reduzindo a dependência de mão de obra e garantindo o desenvolvimento otimizado das plantações.
Nery Gonzalez Hernández é produtor de café na Finca Caribal, localizada em La Paz, Honduras. Ele conta que, no passado, os cafeicultores se baseavam em padrões de estações mais previsíveis para planejar suas compras e manter uma produção de café estável. Mas é claro que esses padrões foram muito alterados pela crise climática.
Garantindo a continuidade das lavouras
Diante dessas mudanças, ficou mais importante e necessário implementar modelos de irrigação para garantir que as plantas tenham a água necessária no momento em que precisarem. “Isso assegura, acima de tudo, a segurança de alguns cultivos. No café, você pode agendar o sistema de irrigação e fazer com que a planta floresça em períodos mais curtos. Isso permite uma programação melhor do período de colheita”, ele explica.
Os sistemas de doação de água também promovem a diversificação de alimentos e de ingredientes adicionais fora do tempo da colheita. “Por exemplo, cultivos de tomate e pimentões são possíveis quando não há tanta produção, e o mercado está sempre os demandando”, acrescenta Pedro.

Os sistemas de irrigação na produção de café
A adoção de sistemas de irrigação na cafeicultura pode trazer diversos benefícios, especialmente em regiões onde as condições climáticas são imprevisíveis e as chuvas são irregulares. Enquanto a cafeicultura brasileira tem implementado esses sistemas há décadas, outros países latino-americanos também têm experiência nesse campo desde os anos 80 e 90.
No entanto, a adoção desses sistemas ainda não é generalizada em todos os países produtores de café na região. Por exemplo, Nery menciona que a porcentagem de cafeicultores em Honduras que utilizam sistemas de irrigação é mínima em comparação com os produtores de hortaliças, que estão mais avançados nesse aspecto. O mesmo é observado na Colômbia, onde a maioria das plantações de café ainda depende exclusivamente da chuva.
Dados da FAO indicam que, em 2018, a superfície irrigada na América Latina representava apenas 7% da superfície total cultivada, o que corresponde a cerca de dois milhões de hectares. Isso destaca um grande potencial de expansão dos sistemas de irrigação na região, especialmente na cafeicultura, onde o acesso à água é crucial para garantir a produtividade e a qualidade dos cultivos.
Que tipos de soluções são oferecidas aos produtores?
Os sistemas de irrigação oferecem aos produtores uma solução crucial para mitigar os efeitos do estresse hídrico nas plantações de café. “É um sistema de auxílio em um momento em que a planta está passando por momentos importantes como floração e crescimento. Isso certamente se converte em mais produção e crescimento”, Afirma Pedro.
Além disso, ele destaca que as propriedades organolépticas do café também são realçadas por uma boa oportunidade de acesso à água. “O grão concentra mais sólidos solúveis, o que influencia positivamente o sabor, a textura, o corpo e o equilíbrio. E tudo isso depende da planta aproveitar melhor os nutrientes disponíveis no solo”.

O que é preciso para implementar um sistema como esse?
É essencial realizar uma análise detalhada das condições locais e das necessidades específicas das plantações. Isso envolve considerar fatores como as condições climáticas, topografia, disponibilidade de água e as características do cafezal.
“É preciso avaliar a aptidão e capacidade do cafezal. Podemos expor plantas possivelmente inadequadas para certo sistema a um metabolismo muito alto ou condições de alta demanda. Isso pode fazer mais mal do que bem, no fim das contas”, explica Pedro.
Além disso, os produtores precisam garantir que tenham uma fonte de água confiável e sustentável, como um rio, poço ou tanque, com um nível constante ao longo das estações. “É crucial realizar testes laboratoriais na água para garantir que a adequação para uso na irrigação, verificando a presença de metais pesados, altas concentrações de sódio ou condutividade elétrica elevada”, ele acrescenta.
O planejamento do design do sistema também é fundamental, considerando a infraestrutura necessária. Devemos adaptar tubos, válvulas, bombas, aspersores ou gotejadores às condições locais e às necessidades das plantações. “Por exemplo, se a fonte de água estiver abaixo do nível das plantações, podem ser necessários tanques ou sistemas de elevação para transportar a água até as áreas alvo” ele complementa.
A manutenção regular do sistema é essencial para garantir seu funcionamento ideal ao longo do tempo, e é importante capacitar os operadores para garantir que saibam como operar e manter adequadamente o sistema de irrigação.
Quais são as limitações possíveis?
Também há uma contrapartida nos sistemas de irrigação, que implica um retorno econômico e o momento adequado da implantação. Uma das variáveis para os produtores acessarem essas tecnologias é o preço. A maioria dos agricultores que se dedicam à cafeicultura trabalham em pequena escala, vivem em condições de pobreza e tem um baixo poder aquisitivo, o que reduz as oportunidades de acesso a crédito em instituições financeiras.
De acordo com Nery, os recursos econômicos para comprar tecnologia com retorno ideal geralmente ficam nas mãos dos grandes cafeicultores. “Estes certamente têm mais acesso e facilidade a recursos tecnológicos. E com isso conseguem financiamentos favoráveis por outras fontes que não sejam necessariamente a produção de café”, ele explica.
Outro obstáculo comum é a própria condição topográfica do local de plantio. Ele sinaliza que em Honduras 40% das plantações estão cultivadas em locais altos, o que dificulta o sistema de irrigação.

A cafeicultura do futuro enfrenta condições ambientais mais erráticas, que podem desencadear um esgotamento do recurso hídrico. Os produtores devem estar cientes de que a água é um elemento vital e insubstituível na agricultura. E que isso legitima a necessidade de implementar sistemas para que o uso da água seja eficiente e melhore as condições produtivas. Além de tornar mais competitivo o negócio em tempos de mudanças climáticas.
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Créditos das fotos: Yenny Ballesteros.
PDG Brasil
Traduzido por Diego Oliveira
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